Como fusões e dissidências formaram os partidos de direita e centro-direita

Entender a atual configuração dos partidos brasileiros exige voltar à ditadura militar. Embora muitas das siglas atuais tenham sido criadas décadas depois, parte importante das forças de centro, centro-direita e direita possui raízes nas sucessivas reorganizações iniciadas a partir de ARENA e MDB, as duas legendas autorizadas durante a maior parte do regime militar.
Com a extinção dos antigos partidos, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) reuniu a base de sustentação do regime, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) concentrou a oposição permitida. O fim do bipartidarismo, em 1979, abriu caminho para uma extensa árvore de transformações, dissidências e fusões que chega aos partidos atuais.
O MDB possui uma das trajetórias mais lineares. Criado em 1966, tornou-se PMDB com a redemocratização e cresceu como uma ampla frente política, reunindo diferentes correntes. Em 2017, recuperou o nome original e voltou a ser MDB.
Foi justamente de uma dissidência do PMDB que nasceu o PSDB, em 1988. Seus fundadores, entre eles Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e José Serra, apresentavam uma proposta social-democrata e ocupavam naquele momento uma posição mais à esquerda que setores do próprio PMDB. Nas décadas seguintes, principalmente durante os governos de Fernando Henrique, o partido aproximou-se do liberalismo econômico e consolidou-se no centro e centro-direita.
Mais curiosa é a história do Cidadania. Sua origem remonta ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1992, após a crise do bloco socialista, parte majoritária da organização criou o Partido Popular Socialista (PPS). Posteriormente, a legenda afastou-se do comunismo, aproximou-se do centro e, em 2019, passou a se chamar Cidadania. Atualmente, forma uma federação com o PSDB, reunindo duas siglas que chegaram ao mesmo campo político por caminhos históricos completamente diferentes.
Na direita tradicional, o Progressistas (PP) apresenta uma das ligações mais claras com a antiga ARENA. Com o fim do bipartidarismo, a ARENA tornou-se PDS. Posteriormente, o PDS uniu-se ao PDC para formar o PPR, que depois participou da formação do PPB. Após novas mudanças de nome, surgiu o atual PP.
Outra ramificação da ARENA chegou ao União Brasil. Uma dissidência do PDS criou, em 1985, o PFL, que se tornou uma das principais forças da centro-direita durante os anos 1990. Em 2007, o partido passou a se chamar Democratas (DEM). Em 2021, DEM e PSL aprovaram uma fusão que originou o União Brasil. O PSL, fundado em 1994, havia ganhado projeção nacional ao eleger Jair Bolsonaro presidente em 2018.
Assim, tanto PP quanto União possuem, por caminhos diferentes, raízes que alcançam a estrutura partidária da antiga ARENA.
O atual Partido Liberal (PL), por sua vez, nasceu de outra trajetória. O PL criado em 1985 fundiu-se, em 2006, com o PRONA, de Enéas Carneiro, formando o Partido da República (PR). Em 2019, a legenda recuperou o nome Partido Liberal. A chegada de Jair Bolsonaro, em 2021, transformou novamente sua identidade política e consolidou a sigla como principal força partidária do bolsonarismo.
O Republicanos não possui ligação direta com ARENA ou MDB. Sua história começou com o Partido Municipalista Renovador (PMR), que obteve registro em 2005 e logo se tornou Partido Republicano Brasileiro (PRB). Com forte presença de lideranças conservadoras e religiosas, cresceu nacionalmente e, em 2019, adotou o nome Republicanos.
O PSD também nasceu fora das antigas árvores partidárias. Criado em 2011 sob a liderança de Gilberto Kassab, recebeu políticos provenientes principalmente do DEM, PSDB, PP e PMDB. Apesar disso, juridicamente não é sucessor dessas legendas nem possui relação com o antigo PSD extinto durante a ditadura. Tornou-se uma das maiores forças de centro e centro-direita do país, com forte presença nos municípios.
Outras legendas atuais também carregam nomes muito diferentes daqueles com os quais começaram. O Podemos nasceu como PTN e adotou a denominação atual em 2017, incorporando posteriormente o PSC. O PRD surgiu da fusão entre PTB e Patriota. Já o Mobiliza é o antigo PMN, enquanto o Agir passou por diferentes denominações, incluindo PRN, partido pelo qual Fernando Collor foi eleito presidente em 1989, e posteriormente PTC. O Avante é o antigo PTdoB.
A Democracia Cristã (DC) recupera uma tradição política anterior à própria ditadura, embora a estrutura partidária atual tenha origem no PSDC fundado nos anos 1990. Já o PRTB, historicamente associado a Levy Fidelix, surgiu nos anos 1990 e posteriormente aproximou-se da direita conservadora.
Há ainda partidos que nasceram sem resultar diretamente da transformação ou fusão de outras siglas. O Novo, registrado em 2015, foi organizado principalmente em torno do liberalismo econômico e ganhou projeção nacional com a eleição de Romeu Zema em Minas Gerais. O Solidariedade, registrado em 2013 e liderado em sua formação por Paulinho da Força, teve forte participação de quadros provenientes do movimento sindical.
Entre as experiências mais recentes está o Missão, criado a partir do Movimento Brasil Livre (MBL). Com registro aprovado em 2025, a legenda passou a disputar seu próprio espaço na direita, combinando principalmente posições liberais na economia e conservadoras em diferentes pautas sociais.
A história mostra, portanto, que aquilo que hoje é chamado genericamente de direita ou centro-direita brasileira possui origens bastante diferentes. Uma parcela descende da estrutura partidária que sustentou o regime militar; outra nasceu da oposição à ditadura; o Cidadania possui raízes no movimento comunista; e partidos como Novo, PSD, Republicanos e Missão surgiram muito posteriormente, sem descendência direta de ARENA ou MDB.
Quase seis décadas depois do surgimento de ARENA e MDB, a direita e o centro-direita brasileiros são resultado de sucessivas divisões, mudanças de nome, fusões e novas organizações. Conhecer essas origens ajuda a compreender não apenas de onde vieram as siglas atuais, mas também por que partidos hoje próximos eleitoralmente podem carregar histórias e tradições políticas completamente distintas.
Da Redação
Comentários
Participe da conversa
Entre para comentar
Escolha Google ou receba um código no seu e-mail.




