Patriotismo não combina com ingerência estrangeira
Elaine Amaral3 min de leituraExiste uma diferença enorme entre manter boas relações internacionais e permitir que governos estrangeiros tentem influenciar os rumos políticos de outro país. Nos últimos dias, Brasil, Estados Unidos e Argentina deixaram de discutir interesses comerciais e diplomáticos para protagonizar um embate que jamais deveria acontecer entre nações parceiras.
Donald Trump elevou tarifas sobre produtos brasileiros e fez repetidas manifestações públicas relacionadas ao cenário político nacional. Javier Milei, por sua vez, cruzou uma linha ainda mais delicada ao desembarcar no Brasil para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes do Supremo Tribunal Federal, provocando uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires.
Não se trata de discutir se Lula tem razão ou se Bolsonaro tem razão. Também não se trata de concordar ou discordar de Flávio Bolsonaro.
Quando um presidente estrangeiro utiliza tarifas comerciais, declarações públicas ou ataques diplomáticos em meio a uma campanha eleitoral brasileira, deixa de agir como chefe de Estado para assumir o papel de ator político dentro de uma eleição que não lhe pertence.
Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação comercial centenária. Mesmo diante de divergências, os dois países construíram uma parceria estratégica que beneficia empresas, produtores rurais, trabalhadores e consumidores dos dois lados. Da mesma forma, Brasil e Argentina compartilham uma das mais importantes relações econômicas e diplomáticas da América do Sul, sendo sócios históricos no Mercosul e parceiros em inúmeros acordos de integração regional.
Essas relações são maiores do que qualquer presidente. São maiores do que Trump. São maiores do que Milei. E certamente são maiores do que uma eleição presidencial brasileira.
É justamente por isso que causa estranheza ver dois chefes de Estado abandonarem a liturgia diplomática para entrar no debate eleitoral brasileiro. Não parece uma defesa dos interesses nacionais de seus próprios países. Parece uma tentativa de influenciar o resultado das urnas de outubro.
Quem acaba pagando essa conta não são os políticos. São empresários brasileiros que exportam. São trabalhadores que dependem dessas exportações. São investidores que observam a instabilidade diplomática. São consumidores que podem sofrer os reflexos de disputas que jamais deveriam sair do campo político.
Nesse cenário, Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio que talvez não esperasse. Embora receba demonstrações públicas de apoio de Trump e Milei, também corre o risco de ser associado a uma estratégia que muitos brasileiros enxergam como ingerência estrangeira nos assuntos internos do país.
O patriotismo sempre foi uma das principais bandeiras do bolsonarismo. Mas patriotismo pressupõe colocar os interesses nacionais acima de alianças ideológicas internacionais. Defender o Brasil significa preservar sua soberania. Significa aceitar que somente os brasileiros escolhem o presidente do Brasil. Significa compreender que divergências políticas internas devem ser resolvidas pelas instituições brasileiras, e não por cartas de presidentes estrangeiros, tarifas comerciais ou discursos feitos em palanques internacionais.
Quem ama seu país pode admirar governos estrangeiros, aprender com experiências internacionais e manter excelentes relações diplomáticas. O que não pode é aceitar, com naturalidade, que líderes de outras nações utilizem sua força política ou econômica para tentar influenciar uma eleição nacional.
Porque, no fim das contas, soberania não é um discurso para época de campanha. É um princípio que deve valer para todos, independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
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