Freire reassumiu liminarmente a presidência nacional do partido após contestar judicialmente a licença que havia concedido ao comando da sigla entre 2023 e 2025. Uma falha técnica em registro cartorial abriu espaço para a ação, ainda sem julgamento de mérito.
Nos bastidores, a disputa é vista como política e não apenas jurídica. Segundo dirigentes históricos, 69 dos 101 integrantes do diretório nacional defendem a federação com o PSB, mantendo o Cidadania no campo progressista e alinhado ao bloco de apoio ao governo Lula.
A articulação conduzida por Freire, em direção oposta, é interpretada por parte significativa da legenda como uma tentativa de aproximar o partido do Republicanos, sigla ligada ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e associada à base conservadora no Congresso.
Em reunião realizada por determinação judicial nesta semana, o clima foi de confronto. Dirigentes afirmam que houve restrição de falas e que propostas para antecipação da eleição interna foram barradas. A principal reivindicação da maioria é que o Congresso Nacional do partido, previsto para março, seja mantido como instância para escolha da nova direção.
Para quadros históricos do Cidadania, uma eventual federação com o Republicanos representaria uma inflexão ideológica brusca. A legenda, que nasceu em 1922 como Partido Comunista Brasileiro e passou por mudanças profundas até chegar à marca atual em 2019, consolidou-se nas últimas décadas como uma força de centro-esquerda com viés reformista.
Freire comandou essa trajetória por cerca de três décadas, mas agora enfrenta resistência crescente. Lideranças estaduais sustentam que a tentativa de alterar o rumo político do partido ocorre à revelia da maioria dos delegados e pode provocar fissuras irreversíveis.
Em Minas Gerais, por exemplo, o diretório estadual já realizou congresso próprio, com eleição registrada nos tribunais eleitorais, o que lhe confere autonomia formal. A direção mineira sinaliza que não aceitará intervenção externa e estuda protagonismo próprio nas eleições estaduais.
O embate expõe mais do que uma disputa por comando: revela uma crise de identidade. A decisão, formalmente, caberá ao Congresso Nacional do partido. Até lá, a tensão tende a se intensificar.
Ao recorrer à via judicial para reassumir o controle e ao agir para bloquear uma federação apoiada pela maioria do diretório, Freire aposta na força institucional para sustentar sua estratégia. Resta saber se conseguirá manter também a base política ou se sairá desse processo comandando um partido menor do que aquele que ajudou a construir.
A principal reivindicação da maioria é a realização do Congresso Nacional previsto para março, quando delegados deverão eleger nova direção partidária.
