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Exaustão feminina não é fraqueza: é cobrança demais

Elaine AmaralElaine Amaral3 min de leitura

Existe uma mentira que as mulheres escutam desde meninas: a de que precisam dar conta de tudo.

Precisam ser boas mães, boas profissionais, boas esposas, boas filhas, boas cuidadoras, boas administradoras da casa, boas amigas e, de preferência, fazer tudo isso sorrindo. Quando conseguem, ninguém aplaude. Dizem apenas que “é obrigação”. Quando não conseguem, vem o julgamento.

É por isso que tantas mulheres chegam aos 40 e 50 anos completamente exaustas. Não porque são fracas. Não porque perderam a capacidade. Mas porque passaram décadas carregando um peso que nunca deveria ter sido apenas delas.

Existe um cansaço que não melhora depois de uma noite de sono. Não desaparece nas férias. Não se resolve com um fim de semana de descanso. É um esgotamento que nasce da soma de milhares de pequenas responsabilidades invisíveis. Da agenda mental que nunca desliga. Das preocupações constantes. Das cobranças internas e externas. Da sensação de que sempre existe mais alguma coisa esperando para ser feita.

Enquanto muitos enxergam apenas uma mulher cansada, por dentro existe alguém tentando sobreviver sem decepcionar ninguém. E talvez essa seja a maior violência que nossa sociedade comete contra as mulheres: transformar a sobrecarga em virtude.

Chamamos de guerreira aquela que nunca para. Admiramos a mulher que trabalha o dia inteiro, chega em casa, cuida dos filhos, organiza a casa, resolve problemas da família e ainda encontra tempo para cuidar dos outros. Mas quase nunca perguntamos quem cuida dela. Criamos uma cultura em que descansar provoca culpa.

Quando uma mulher diz que está cansada, a resposta costuma ser sempre a mesma: “Você precisa se organizar melhor”, “isso é da idade”, “todo mundo passa por isso”, “é só estresse”. Não. Nem sempre é.

Muitas vezes é um corpo que chegou ao limite depois de anos funcionando em estado permanente de alerta. Uma mente que nunca teve autorização para desligar. Um coração que passou tanto tempo cuidando de todo mundo que esqueceu de cuidar de si. O problema é que essa dor quase nunca aparece. Ela é silenciosa.

A mulher continua levantando cedo. Continua trabalhando. Continua fazendo compras, levando filhos ao médico, ajudando nas tarefas da escola, cuidando dos pais idosos, respondendo mensagens, resolvendo problemas no trabalho e administrando uma casa inteira. Por fora, parece que está tudo funcionando. Por dentro, ela já não sabe mais quem é.

O mais injusto é que, quando finalmente ela desaba, muitos perguntam o que aconteceu. A pergunta correta talvez seja outra: como ela conseguiu suportar tudo isso por tanto tempo?

Está na hora de abandonar a romantização da mulher que “dá conta de tudo”. Dar conta de tudo nunca deveria ser um objetivo. Porque ninguém consegue carregar o mundo inteiro sem que, em algum momento, ele desabe sobre os próprios ombros.

Nós, mulheres, precisamos reaprender a dizer não sem culpa. Precisamos dividir responsabilidades. Precisamos entender que descansar não é preguiça, que pedir ajuda não é sinal de fracasso e que estabelecer limites não é egoísmo.

E os homens também precisam compreender que ajudar não é favor. Dividir tarefas domésticas, participar da criação dos filhos e assumir responsabilidades familiares não é gentileza. É obrigação de quem faz parte daquela família.

A sociedade inteira precisa rever a forma como mede o valor das mulheres. Porque ele não pode continuar sendo calculado pela quantidade de peso que elas conseguem carregar antes de quebrar.

Talvez a maior demonstração de força não seja continuar suportando tudo em silêncio. Talvez seja ter coragem de parar antes que o corpo, a mente e o coração decidam fazer isso por nós.

Nenhuma mulher deveria precisar adoecer para que finalmente autorizem seu descanso.

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