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A sucessão antes do trono

Elaine AmaralElaine Amaral3 min de leitura

Há diferença entre liderança política e liderança familiar. Jair Bolsonaro exerceu as duas funções desde sua eleição, em 2018. Ultimamente, porém, esse controle parece cada vez mais distante. Os acontecimentos das últimas semanas mostram que, mesmo sendo a maior liderança da direita brasileira das últimas décadas, Bolsonaro já não consegue impor unidade nem dentro da própria casa.

A família que durante anos vendeu a imagem de um projeto político coeso hoje expõe publicamente suas fissuras. Eduardo Bolsonaro atua em Washington numa estratégia própria em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, enquanto Flávio tenta administrar o impacto político do tema sobre sua pré-candidatura. O tarifaço tornou-se um dos principais temas da disputa presidencial e provocou críticas até de nomes do próprio campo conservador, como Ronaldo Caiado.

Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro rompeu o silêncio ao divulgar vídeos nos quais acusa Flávio de desrespeitá-la. O episódio foi seguido por sua saída da presidência do PL Mulher e escancarou um conflito que já não permanecia apenas nos bastidores.

Durante muito tempo acreditou-se que Jair Bolsonaro definiria sozinho quem herdaria seu capital político. Hoje, porém, fica evidente que a decisão talvez não dependa mais dele. Michelle construiu uma liderança própria junto ao eleitorado feminino e evangélico. Eduardo mantém interlocução internacional e aposta em um discurso ainda mais ideológico. Flávio é o nome oficial do partido para disputar a Presidência, mas enfrenta desgaste dentro do próprio núcleo familiar. Cada um ocupa um espaço diferente. Cada um parece disputar um pedaço da herança.

Não é apenas dentro da família que isso acontece. Aliados históricos também passaram a olhar para o futuro sem esperar autorização do patriarca. Ronaldo Caiado lançou sua candidatura presidencial e percorre o país defendendo um caminho próprio. Romeu Zema faz o mesmo, tentando ocupar o espaço de uma direita liberal e menos dependente do sobrenome Bolsonaro. Nenhum dos dois parece disposto a esperar um gesto de benevolência da família. Ambos entenderam que, em política, vácuos de liderança costumam ser ocupados rapidamente.

Nesse contexto, talvez o movimento mais pragmático tenha sido justamente o de Tarcísio de Freitas. Ao permanecer no governo de São Paulo, evita uma disputa nacional marcada por incertezas e preserva o maior ativo eleitoral da direita administrativa. Caso a eleição presidencial termine em derrota para esse campo político, continuará governando o maior estado do país. Caso haja vitória, seguirá como um dos principais nomes para o ciclo seguinte.

A política brasileira convive há décadas com lideranças carismáticas, mas nenhuma delas conseguiu transformar o poder em herança automática. Nem Lula controla integralmente a esquerda. Nem Bolsonaro controla integralmente a direita.

A tentativa de construir uma sucessão familiar esbarra justamente na natureza da República. Não existe príncipe por direito de nascimento. Não existe rainha por casamento. Não existe herdeiro obrigatório.

E quem observa os movimentos recentes percebe que talvez Jair Bolsonaro seja hoje o único interessado em restaurar plenamente o passado. Os demais parecem muito mais preocupados com o futuro. Afinal, quem herdar esse capital político também herdará o comando da principal força conservadora do país pelos próximos anos.

No fundo, a disputa já não parece ser sobre libertar o rei. Parece ser sobre quem ocupará o castelo quando ele deixar de governar.

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