Quatro prisões por violência doméstica na região expõem desafio para Prefeituras e Câmaras

Quatro homens foram presos em flagrante por violência doméstica em apenas um fim de semana. Dois deles são acusados de tentar estrangular as próprias companheiras. Os casos ocorreram em Sumaré, Hortolândia e Monte Mor, mostrando que a violência contra a mulher continua presente em toda a região.
Os episódios não são exceção. Eles refletem um problema que cresce em todo o país. Levantamentos nacionais mostram que a maioria das brasileiras acredita que a violência doméstica aumentou nos últimos anos, enquanto o Ligue 180 registrou crescimento nas denúncias e manteve o ambiente doméstico como o principal local das agressões.
Delegacias especializadas, campanhas durante o Agosto Lilás, palestras, iluminação pública, apoio psicológico e atendimento às vítimas são importantes. Mas basta olhar para os números para perceber que essas ações, isoladamente, não têm sido suficientes. A violência continua acontecendo dentro de casa, onde muitas vezes nenhuma câmera pública, guarda municipal ou viatura consegue impedir o agressor.
Prevenção e cultura
Nos últimos anos, cresceram nas redes sociais comunidades e influenciadores ligados à chamada “manosfera”, conjunto de grupos que inclui segmentos conhecidos como “red pill”, entre outros, que difundem visões negativas sobre mulheres e relacionamentos. Pesquisas acadêmicas apontam que parte dessas comunidades online apresenta conteúdo cada vez mais radicalizado e misógino, reforçando discursos de hostilidade contra mulheres.
Seria irresponsável afirmar que esses movimentos explicam, sozinhos, o aumento da violência doméstica. A violência contra a mulher é um fenômeno complexo, influenciado por fatores culturais, sociais, econômicos e familiares. No entanto, também seria um erro ignorar que discursos que naturalizam a submissão feminina ou apresentam mulheres como inimigas do homem acabam contribuindo para um ambiente de intolerância e desumanização.
Quando uma sociedade normaliza a ideia de que a mulher deve obedecer, servir ou aceitar qualquer comportamento do parceiro, cria-se um terreno fértil para relações abusivas. A agressão física costuma ser o último estágio de um processo que começa muito antes, com controle, humilhação, ameaças e violência psicológica.
Não basta apenas acolher a vítima depois da agressão. É preciso investir em prevenção, educação, acompanhamento de famílias em situação de risco, fortalecimento da rede de proteção e programas permanentes de conscientização voltados também aos homens e aos jovens.
Representatividade
Em Sumaré, um fato chama atenção: a Câmara Municipal não possui nenhuma mulher entre seus vereadores. Isso não significa, por si só, que os parlamentares homens não estejam comprometidos com a pauta feminina. Seria injusto fazer essa afirmação. Mas também é legítimo perguntar se uma cidade em que metade da população é composta por mulheres consegue discutir plenamente políticas públicas voltadas às suas necessidades sem qualquer representação feminina no Legislativo.
A representatividade, por si só, não resolve o problema da violência. Mas diferentes experiências de vida ajudam a ampliar o debate e a construir políticas mais sensíveis às realidades enfrentadas diariamente pelas vítimas.
A violência doméstica não pode continuar sendo tratada apenas como uma ocorrência policial. Ela precisa ser encarada como um desafio permanente das administrações municipais. Quando os números continuam crescendo, talvez seja hora de reconhecer que fazer apenas o básico já não basta.
Fonte: Da redação
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