Spasso Cidades
Colunistas

Quando a aparência vence o debate

Elaine AmaralElaine Amaral3 min de leitura

A repercussão da reportagem sobre a visita de Marina Silva a Sumaré revelou muito mais do que opiniões sobre uma figura pública. Ela acabou expondo um retrato de como parte do eleitorado do interior paulista encara a política e, principalmente, como o debate público vem sendo conduzido.

Entre os comentários publicados nas redes sociais do SPASSO Cidades, predominaram manifestações negativas. Isso, por si só, não representa uma pesquisa eleitoral nem permite afirmar como a população da cidade vota. Mas serve como um termômetro de um público bastante engajado politicamente e ajuda a compreender um cenário que a esquerda enfrenta há anos no interior de São Paulo.

Marina Silva não é uma política qualquer. Deputada federal, ex-ministra de Estado, ex-senadora, ex-candidata à Presidência da República e uma das principais lideranças da esquerda brasileira quando o assunto é meio ambiente, ela reúne características que, em tese, poderiam ampliar seu diálogo com setores mais moderados. É evangélica, tem uma trajetória pessoal marcada pela superação e costuma adotar um discurso menos ideológico do que outras lideranças do mesmo campo político.

Mesmo assim, a rejeição observada nos comentários foi intensa.

O mais curioso é que boa parte das críticas sequer discutia suas propostas, sua atuação no Ministério do Meio Ambiente ou sua trajetória política. Em muitos casos, os ataques se concentravam em sua aparência física, em ofensas pessoais e em comentários que pouco ou nada tinham a ver com política.

Quando a discussão deixa de analisar ideias para atacar características pessoais, perde-se uma oportunidade de debater os rumos do país. Não importa se o alvo é Marina Silva, Jair Bolsonaro, Lula, Tarcísio de Freitas ou qualquer outro agente público. A democracia amadurece quando as divergências são baseadas em argumentos, e não em ofensas.

Ao mesmo tempo, ignorar esse ambiente seria um erro estratégico para a esquerda.

Se pretende voltar a disputar espaço de forma competitiva no interior paulista, terá um desafio que vai muito além da elaboração de programas de governo. Será necessário reconstruir pontes com um eleitorado que, em muitos casos, já criou barreiras antes mesmo de ouvir qualquer proposta.

A política é feita de narrativas, mas também de percepção. E, atualmente, a percepção parece anteceder qualquer discussão sobre conteúdo.

Isso não significa que as propostas deixaram de importar. Significa apenas que, para parte do eleitorado, elas sequer chegam a ser analisadas. A imagem construída sobre determinado grupo político fala mais alto do que qualquer plano de governo.

No fim das contas, a repercussão da reportagem talvez tenha ensinado mais sobre o eleitor do que sobre Marina Silva.

Mostrou que, para uma parcela das pessoas, a política ainda é discutida de forma superficial, marcada por rótulos, rejeições automáticas e ataques pessoais. E enquanto esse for o nível do debate, não será apenas a esquerda que encontrará dificuldades para convencer o eleitor. Será qualquer projeto político que tente substituir slogans por argumentos.

Porque uma democracia forte depende de opiniões diferentes. Mas depende, acima de tudo, de discussões que aconteçam no campo das ideias, e não da aparência de quem as apresenta.

CompartilharWhatsAppFacebookX / Twitter

Comentários

Participe da conversa

Entre para comentar

Escolha Google ou receba um código no seu e-mail.

Veja Também