Politicando: alianças ideológicas, emendas e o terceiro turno de Sumaré
Elaine Amaral6 min de leituraEsquerda x Direita
Se no cenário nacional esquerda e direita são adversários vorazes, quando o assunto é local a história é bem diferente. Renan Santos, principal nome do Missão Brasil, é rival declarado do presidente Lula. As duas visões políticas são opostas. Enquanto o nome de Lula não sai da boca de Renan, o presidente parece mal saber de quem se trata o presidenciável do Missão. Da mesma maneira que o PL é o rival direto do PT, com o desgaste causado pela família Bolsonaro, o Missão busca ocupar esse espaço que vem se abrindo na extrema direita. Mas se no cenário nacional a briga é feia, aqui na região tudo parece mais amistoso.
Reunião de amigos
Willian Souza, candidato a deputado estadual pelo PT teve uma agenda em Nova Odessa com o candidato a deputado federal pelo Missão Brasil na cidade. Não apenas compartilharam o ambiente, como também trocaram elogios em público. Numa câmara municipal, políticos de espectros opostos podem convergir quando o assunto é a construção de uma escola, a reforma de um hospital ou o recape de uma avenida. Aí a ideologia é a mesma. Já no cenário nacional, onde se legisla, como irão convergir quando o assunto for a criminalização da misoginia? O orçamento para causas sociais? A taxação das grandes fortunas? O posicionamento da política internacional do Brasil? A direita acredita que criminalizar a misoginia é um ataque direto à liberdade de expressão. Já a esquerda acredita que a criminalização ajuda a combater a violência contra a mulher. A direita acredita num estado mínimo, sem bolsa família ou qualquer tipo de auxílio. Já a esquerda acredita que tais programas ajudam a reduzir as desigualdades sociais. A direita acredita que taxar os super ricos afasta o capital do país e que pune aqueles que mais trabalham e se esforçam. Já a esquerda acredita que o trabalhador trabalha e se esforça tanto quanto o patrão, e quem mais ganha deve contribuir mais para o país. A direita acredita que ceder às exigências dos EUA é o melhor caminho, enquanto a esquerda acredita que soberania nacional não se discute. Agora vem a questão: quem é que está negociando a sua própria ideologia? É o Willian que foi mais para a direita, ou o Missão que está vindo mais para a esquerda?
Hábito
Se o encontro de Willian em Nova Odessa deixou dúvidas sobre seu posicionamento ideológico, um lembrete das últimas eleições deixa tudo mais claro. Ao disputar a prefeitura de Sumaré em 2024, ao escolher seu vice, Willian optou pelo nome de Décio Marmirolli, do União Brasil. A capacidade política e o histórico do então candidato a vice eram exemplares, mas os espectros políticos de ambos deveriam ser opostos. Décio deixou claro que não abriu mão de seus ideais, e que sempre foi e sempre será um homem conservador e de direita. Agora vem a questão, se o Willian é do PT, é da esquerda, tira foto com Lula, com Padilha e vai subir no palanque ao lado de Haddad, porque quando vai se aliar sempre escolhe gente de direita?
Emendas parlamentares
Ter um deputado estadual é muito importante para qualquer cidade, ainda mais quando se trata de um município grande. Na região, Sumaré, Hortolândia e Campinas se destacam nesse cenário. As três cidades possuem deputados estaduais eleitos, e todas elas desfrutam de polpudas emendas parlamentares todos os anos. É visível que as demais cidades, sem representação oficial na Alesp, recebem bem menos emendas. Quando o município é capaz de eleger um deputado próprio, acaba sendo mais beneficiado pelas emendas. Não é apenas favoritismo, é o trabalho de quem conhece de perto o povo e suas necessidades. Neste ano, Campinas com certeza elegerá seus deputados, mas Sumaré e Hortolândia correm o risco de perderem suas representações. Será que vale a pena o risco de voltar para a invisibilidade?
Relembrando
Quando Sumaré, na época do finado ex-prefeito Antônio Bacchim, perdeu o hospital municipal, a cidade não tinha deputado estadual na Alesp. Mesmo sendo do PT, partido do governo federal à época, Bacchim não conseguiu com o Ministério da Saúde uma solução para o Conceição Imaculada. Sem um deputado, a cidade ficou sem quem olhasse por ela. Basta ver nas emendas recebidas pela cidade hoje em dia, que a sua maioria é destinada para a saúde. Se a cidade tivesse um deputado para representá-la no passado, será que teria perdido o hospital? Será que a verba necessária não teria chegado no momento certo? Até hoje Sumaré amargura a perda do hospital, e segue sem um até o momento. Ser “invisível” às vezes tem seus reveses.
Repeteco
As eleições de 2026, em Sumaré, são um repeteco das eleições de 2024 e são um presságio para 2028. Os principais nomes da cidade que disputarão vagas em outubro são representantes diretos dos grupos que disputaram a prefeitura em 2024. O atual prefeito e vencedor da última disputa, Henrique do Paraíso, entra para o pleito de outubro com dois representantes. Raí do Paraíso, seu irmão, vem para federal, e seu secretário municipal, Rafael Virginelli, vem para estadual. Já Willian Souza, o segundo colocado em 2024, vem representando o próprio grupo político com sua candidatura a estadual. O atual deputado estadual, Dirceu Dalben, também virá representando seu próprio grupo político. Em 2024, seu cunhado, Éder Dalben, ficou fora do segundo turno na tentativa de suceder seu filho, Luiz Dalben. Luiz inclusive volta às urnas, dessa vez como candidato a deputado federal ao lado do pai. A realidade é que a luta de Willian é contra o anti-petismo, que é forte na cidade. A verdadeira batalha é entre Henrique e Dalben. Os resultados das urnas serão uma avaliação direta sobre o governo Henrique. Será que a população se arrependeu das mudanças pelas quais votaram? Será que sentem saudades da época dos Dalben? É quase um terceiro turno, e as respostas, as urnas dirão.
Orgulho de ser sumareense?
Muitas vezes dizemos neste jornal que muitos sumareenses sentem dificuldade em sentir orgulho de serem de Sumaré. Acontece que esse sentimento agora se espalhou pela política. Acreditem se quiser, mas na câmara foi aprovado um projeto de lei que permite que vereadores não residam na cidade. Isso mesmo, o parlamentar eleito para representar Sumaré não precisa morar em Sumaré. Podem escolher morar em cidades mais seguras, com melhor educação, saúde e infraestrutura, como Nova Odessa, Hortolândia, Campinas ou Paulínia. Oras, qual incentivo o político tem para melhorar a sua cidade, se nem nela mora? Nem aqui pagam IPTU e querem decidir quanto o povo deve pagar. Um absurdo! Não ironicamente, o autor do projeto é casado com uma vereadora de Nova Odessa. Onde será que o sujeito escolheu morar, hein?
Comentários
Participe da conversa
Entre para comentar
Escolha Google ou receba um código no seu e-mail.




