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O bagulho era louco: crônica relembra crises e governos do Brasil desde a ditadura militar

Ryta Alves repassa com humor ácido as crises, planos econômicos e governos brasileiros desde 1976 até os dias atuais: “Viram como já passamos por poucas e boas? E estamos aqui”.

3 min de leitura
O bagulho era louco: crônica relembra crises e governos do Brasil desde a ditadura militar
Ryta Alves, colunista e cronista

O bagulho era louco. Lembram? Como eu sou de 1976, me identifiquei bem. Alguém mais por aqui viveu essas histórias?

Eu nasci porque alguém teve a brilhante ideia de parir uma criança em plena ditadura militar. Em 1976, ano em que nasci, tínhamos um "doce" de pessoa no poder: Geisel. Depois veio Figueiredo, outro docinho, seguido do natimorto Tancredo Neves. O infinito José Sarney tomou as rédeas e o cavalo galopou pisando em nossas cabeças. A gente ligava a TV e falava-se em SECA; as pessoas passavam fome, não tinham acesso ao básico. Cansei de ver minha mãe escolhendo roupas para doação para levar na escola onde eu estudava, dizendo que as peças iriam para as pessoas do Nordeste. Lembro muito bem da TV mostrando a fome, os açudes secos e as famílias deixando o sertão.

Dos anos 90 às turbulências de Brasília

Como desgraça pouca é bobagem, veio Fernando Collor, o bonitão, e confiscou a poupança da geral. Pessoas adoeceram e perderam as economias de uma vida inteira. Quando entrou Itamar Franco, a coisa já estava complicada e o máximo de espanto foi quando Itamar apareceu, todo descontraído, no sambódromo ao lado de uma modelo sem calcinha (se tiver algum jovem aí, pesquise Lilian Ramos e Itamar Franco para conferir).

Foi no governo Itamar que Fernando Henrique Cardoso, o "príncipe dos sociólogos", ficou pop e virou presidente por oito anos. FHC meteu canetada, privatizou estatais, manteve juros nas alturas e desemprego elevado, mas todo mundo relevava porque ele controlou a inflação com o Plano Real. Ele falava francês, sabia usar garfo e faca e passava férias no seu apartamento em Paris: enfim, um presidente que não causava vergonha internacional.

Daí veio o Lula, que desde 1989 tentava emplacar. Foram algumas eleições passando por um rebranding até chegar em 2002. Chegou luz em vários rincões do país, água e comida na mesa. A classe média chiou porque empregada doméstica passou a ter direito trabalhista. Depois entrou a Dilma, a primeira mulher presidenta do Brasil, que acabou defenestrada no segundo mandato. A geral viajava para o exterior porque o dólar estava parelho com o real. E no impeachment, parlamentares homenageavam torturador da ditadura em rede nacional.

Bets, pandemia e a sobrevivência do brasileiro

Depois entrou Michel Temer, o "vampirão", que colocou as Bets na vida do brasileiro, reformou a aposentadoria e passou o bastão. E quando a gente achava que não podia piorar, veio a eleição de 2018 com um abismo de negacionismo: cercadinho em Brasília, agressões a jornalistas e a cereja do bolo foi a pandemia de Covid-19, com atraso na compra de vacinas e milhares de famílias enlutadas. Eu não esqueci, nunca vou esquecer e nenhum brasileiro deveria esquecer.

E olha: pode até não parecer, mas esse resumão é só para animar vocês. Viram como já passamos por poucas e boas? E estamos aqui. E vamos continuar aqui.

Ryta Alves
Cronista e colaboradora

As opiniões e memórias expressas nesta crônica são de responsabilidade da autora e não representam necessariamente a posição editorial do SPASSO Cidades.

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