O Conto da Aia e a política: por que o machismo também é sustentado por mulheres no poder
Alethea Assunção analisa os discursos contra o feminismo no Parlamento, a metáfora de O Conto da Aia e por que o machismo é comportamento reproduzido também por mulheres.

Lembra quando eu digo nas minhas palestras que machismo é comportamento? E que, justamente por isso, pode ser reproduzido por mulheres?
O patriarcado não precisa de homens o tempo inteiro para continuar funcionando. Às vezes, encontra mulheres dispostas a defender as suas regras. É aí que O Conto da Aia deixa de parecer tão distante. Porque talvez a parte mais perturbadora de uma distopia não seja existir uma Tia Lídia. É existirem mulheres suficientes dispostas a dizer que ela está certa.
Conquistas históricas que não foram presentes
Há pouco mais de um século, mulheres eram presas, ridicularizadas e alimentadas à força por reivindicar o direito de votar. Emily Davison morreu em 1913 atropelada pelo cavalo do rei ao protestar pelo sufrágio. Bertha Lutz passou décadas lutando pelo voto feminino no Brasil, conquistado apenas em 1932. Não foi presente; foi conquista dura de gerações.
E é por isso que me inquieta ver uma mulher chegar ao Parlamento com quase dois milhões de votos (1.956.238 votos) e sustentar discursos abertos contra o feminismo, dizer que "não deve nada ao feminismo", que feminicídio seria uma "armadilha semântica" e que "a guerra tá só começando".
Liberdade de resposta e vigilância sobre direitos
Não é sobre impedir uma mulher de falar. É sobre lembrar que a liberdade de expressão também inclui o direito legítimo de responder. O voto é livre. A fala é livre. A escolha é livre. E a crítica também.
Direitos não desaparecem necessariamente de uma vez só. Às vezes, são corroídos na fala, na piada, no discurso, na relativização cotidiana. O sistema não precisa calar uma mulher: basta convencer outra a defender as regras que mantêm as mulheres caladas.
Porque, às vezes, até quem usa vestido pode ajudar a manter a Aia de pé. O voto é secreto; a nossa história, não.
Alethea Assunção
Palestrante e bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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