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Servidores públicos têm força para decidir os rumos e a sobrevivência de um governo

Mais do que o peso direto nas urnas, o contato diário do funcionalismo na ponta dos serviços essenciais molda a percepção popular e define a governabilidade.

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Servidores públicos têm força para decidir os rumos e a sobrevivência de um governo

Uma administração municipal pode ter projetos, investimentos, obras e recursos, mas praticamente tudo aquilo que chega diariamente à população passa pelas mãos de um servidor público. É justamente por isso que a relação entre governo e funcionalismo está longe de ser apenas uma discussão sobre salários e benefícios. Para qualquer prefeito, manter uma relação funcional com seus servidores é também uma questão de governabilidade.

Em Sumaré, o funcionalismo municipal representa uma parcela relativamente pequena diante do universo total de eleitores. O peso político da categoria, entretanto, não pode ser medido apenas pela quantidade de votos dos próprios servidores. Muitos sequer residem no município e, portanto, não votam na cidade. Ainda assim, são milhares de trabalhadores mantendo diariamente o contato direto entre Prefeitura e população.

Capilaridade e representação política

Curiosamente, essa capilaridade não tem se convertido com a mesma facilidade em representação eleitoral própria. Atualmente, a categoria não possui uma representação direta na Câmara Municipal. O presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Sumaré (Sindissu), Jobson Pierri, por exemplo, disputou uma cadeira no Legislativo em 2024, mas não foi eleito.

Isso ajuda a demonstrar uma aparente contradição. O funcionalismo pode encontrar dificuldades para transformar sua organização em uma candidatura eleitoralmente competitiva, mas possui enorme capacidade de influenciar a percepção da população sobre quem governa.

Quando um morador adoece e procura uma UBS, provavelmente encontrará primeiro um servidor municipal. Médicos, enfermeiros, técnicos, recepcionistas e demais profissionais serão responsáveis pela experiência daquele cidadão com a saúde pública. Se ele for bem atendido, a Prefeitura ganha pontos. Se enfrentar dificuldades, demora ou um atendimento ruim, dificilmente sairá reclamando nominalmente do funcionário: para o cidadão, quem falhou foi o governo.

Na Educação ocorre algo semelhante. São professores, diretores, merendeiras, inspetores, auxiliares e tantos outros profissionais que fazem uma escola municipal funcionar todos os dias. O prefeito pode anunciar programas educacionais, reformas e investimentos, mas é dentro da escola, na relação cotidiana entre servidores, alunos e famílias, que boa parte da avaliação sobre a qualidade da educação municipal é construída.

O mesmo acontece quando alguém procura a Prefeitura para resolver uma burocracia, precisa de manutenção em um equipamento público, utiliza um serviço de assistência social ou depende de qualquer outra estrutura mantida pelo município.

O cartão de visitas da administração

O servidor é, na prática, um dos principais cartões de visita de uma administração. Isso não significa atribuir exclusivamente ao trabalhador a responsabilidade pela qualidade do serviço. Pelo contrário. Um bom atendimento também depende de estrutura, número adequado de profissionais, equipamentos, organização, treinamento e condições de trabalho. Todos esses fatores passam diretamente pelas decisões da administração.

Um servidor que encontra boas condições de trabalho, recebe seus direitos corretamente, possui estrutura para exercer sua função e sente que existe diálogo com a administração tende a encontrar condições melhores para entregar um serviço de qualidade. E quem normalmente recebe o reconhecimento político por uma máquina pública funcionando bem é o prefeito.

Desgaste político e memória administrativa

Sumaré conhece os efeitos políticos que um conflito prolongado com o funcionalismo pode provocar. Durante a administração da ex-prefeita Cristina Carrara, os embates com servidores e episódios de greve contribuíram para o ambiente de desgaste enfrentado pelo governo. Evidentemente, uma derrota eleitoral nunca pode ser explicada por um único fator, mas conflitos com uma categoria que está diariamente em contato com milhares de moradores possuem capacidade de amplificar insatisfações já existentes.

Uma greve transforma imediatamente uma discussão trabalhista em um problema político. Se professores paralisam, milhares de famílias são afetadas. Se profissionais da Saúde interrompem atividades, os pacientes sentem os efeitos. Se setores de manutenção param, os problemas aparecem nas ruas. Merenda, transporte, limpeza, fiscalização e atendimento administrativo também possuem capacidade de produzir reflexos imediatos na rotina da cidade.

É também por isso que olhar apenas para o tamanho eleitoral da categoria pode levar qualquer grupo político a uma conclusão equivocada. Organizados, os servidores talvez não tenham votos suficientes para determinar sozinhos quem será prefeito de uma cidade do tamanho de Sumaré. Mas um conflito generalizado com o funcionalismo pode produzir desgaste suficiente para retirar de qualquer governo uma parcela importante do apoio necessário para vencer uma eleição apertada.

Equilíbrio orçamentário e diálogo institucional

Isso não significa que um prefeito deva simplesmente aceitar toda reivindicação sindical. Administrar também significa respeitar limites orçamentários, responsabilidade fiscal e interesses do conjunto da população. Sindicato e governo ocupam posições diferentes e conflitos eventualmente existirão. Uma relação saudável não é aquela em que um lado sempre concorda com o outro, mas aquela em que existe negociação, previsibilidade e respeito.

Da mesma forma, o sindicato precisa exercer sua função de representação com responsabilidade, enquanto a administração precisa compreender que o servidor não é adversário do governo. É justamente ele quem transforma decisões tomadas nos gabinetes em serviços efetivamente entregues nas ruas.

A permanência da estrutura pública

Prefeitos passam. Secretários passam. Governos começam e terminam. A estrutura permanente da Prefeitura continua sendo sustentada, em grande parte, pelo funcionalismo de carreira.

Na política, os servidores podem até não formar isoladamente uma força eleitoral suficiente para colocar alguém no poder. Mas quando a relação com milhares de trabalhadores se deteriora e o problema chega às escolas, postos de saúde, repartições e ruas, eles podem ajudar a criar exatamente o cenário contrário.

Valorizar o servidor, portanto, não é somente reconhecer quem mantém a cidade funcionando. Para qualquer governo que pretenda preservar a estabilidade, entregar bons serviços e chegar competitivo à próxima eleição, é também uma questão de sobrevivência política.

(Da Redação)

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