Quatro vítimas por minuto: como criminosos usam biometria e fotos para contrair empréstimos
Ocorrências de estelionato dispararam 72% no Brasil entre 2021 e 2025. Advogado criminalista de Campinas alerta para a sofisticação das fraudes com reconhecimento facial, engenharia social e manipulação de biometria para abrir contas fraudulentas.

A explosão silenciosa do estelionato contemporâneo
O Brasil assiste a uma transformação radical no mapa da criminalidade. Paralelamente à digitalização acelerada dos serviços financeiros e ao uso massivo dos pagamentos instantâneos, consolidou-se uma verdadeira indústria clandestina de fraudes patrimoniais.
Dados oficiais sobre a segurança pública revelam que, entre 2021 e 2025, as ocorrências de estelionato registradas pelas autoridades saltaram 72%, alcançando a marca estarrecedora de 2,26 milhões de boletins anuais. Na prática, a estatística representa cerca de 258 registros por hora — ou seja, mais de quatro cidadãos lesados a cada minuto no país. Trata-se, contudo, de um recorte conservador, visto que milhares de vítimas não oficializam queixa por constrangimento ou descrença na punição dos golpistas.
Para o advogado criminalista Rodolfo Nóbrega Luz, do escritório Cardella Advogados, com atuação em Campinas, essa mutação decorre da vulnerabilidade na hiperconectividade.
“Diferentemente dos delitos com violência ou grave ameaça física, o estelionato moderno atua na psicologia: na captura da confiança, na indução ao erro e na exploração do estresse. O smartphone virou a central da vida financeira do cidadão, mas sem que houvesse um aprendizado proporcional sobre segurança digital”, pondera o criminalista.
Engenharia social: a invasão da mente antes do sistema
Nesse ecossistema criminoso, não é necessário violar barreiras criptográficas ou quebrar sistemas de grandes corporações bancárias. Os fraudadores especializaram-se na chamada engenharia social: a manipulação calculada de gatilhos universais da mente humana, como urgência, medo, afeto familiar ou ambição.
Em expedientes cotidianos — como o golpe da falsa central de atendimento do banco, falsos pedidos de socorro de parentes ou avisos alarmantes de compras suspeitas —, a vítima é colocada em estado de estresse extremo. Induzida a acreditar que está protegendo seu patrimônio, ela mesma transfere recursos ou fornece acessos aos criminosos.
O perigo da biometria facial como chave de acesso
O salto qualitativo mais crítico das novas fraudes reside na captura indevida dos dados biométricos do cidadão, sobretudo o reconhecimento facial. Vendida como camada inviolável de autenticação, a biometria facial virou o principal alvo dos golpistas.
O especialista alerta para duas modalidades graves de ataque:
- Manipulação sintética (deepfakes): Utilização de fotos públicas colhidas em redes sociais e cruzadas com vazamentos de dados para gerar vídeos manipulados e burlar checagens automatizadas de "prova de vida";
- Indução direta: Abordagens em que a própria vítima é convencida a escanear o rosto sob o pretexto inocente de receber um brinde promocional, validar entrega de mercadoria ou atualizar cadastro de aplicativo. Na realidade, a imagem autoriza a abertura de contas correntes e a contratação de empréstimos vultosos em seu nome.
“Ao contrário de uma senha bancária, que você troca em segundos ao suspeitar de vazamento, o rosto humano é imutável. Quando a identidade física é convertida em chave mestra de transações sem travas redundantes, a vulnerabilidade do cidadão atinge patamares alarmantes”, alerta Dr. Rodolfo Nóbrega Luz.
Responsabilidade dos bancos e caminhos de proteção
O advogado reforça que o endurecimento puramente penal — como a criação de penas mais rígidas para fraudes eletrônicas — produz efeito limitado contra quadrilhas organizadas e interestaduais que operam a longa distância.
A solução passa pela responsabilização civil e técnica das instituições bancárias e empresas de tecnologia. Protocolos como travas temporais para movimentações atípicas, bloqueios cautelares robustos e camadas de confirmação multicanal são indispensáveis para que o risco da atividade econômica não seja transferido integralmente para os ombros do consumidor.
Serviço
Dr. Rodolfo Nóbrega Luz é advogado criminalista do escritório Cardella Advogados, com atuação em Direito Penal Econômico, crimes cibernéticos e governança de segurança da informação em Campinas e região.
(Fonte: Comunicação Estratégica Campinas)
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