Política, redes sociais e o novo eleitor: por que curtida na internet não substitui confiança
Dr. Sérgio Rosa analisa a transformação digital da política, o impacto da IA nas campanhas e adverte: curtidas não substituem trabalho e compromisso real com as pessoas.
Sérgio Rosa3 min de leituraA política mudou. E talvez a maior transformação esteja justamente no lugar onde hoje acontece boa parte da conversa: na palma da nossa mão.
Durante muito tempo, fazer política significava subir no palanque, ocupar espaço no rádio e aparecer nos horários nobres da televisão. Hoje, um aparelho celular conecta um candidato a milhares de pessoas em poucos minutos. Uma câmera, uma boa ideia e alguns segundos de vídeo conseguem fazer aquilo que, no passado, exigia grandes estruturas financeiras e equipes numerosas.
A participação ativa do novo eleitor digital
As redes sociais democratizaram a comunicação política, mas também trouxeram responsabilidades inéditas. No ambiente digital, o candidato é observado, questionado, comentado e cobrado em tempo real. Uma declaração ganha proporções gigantescas antes mesmo que seu autor compreenda a dimensão das palavras.
E há um ponto ainda mais relevante: o eleitor também mudou. Ele não quer apenas ouvir passivamente; quer participar. Comenta, questiona, critica, compartilha e compara propostas. O cidadão deixou o papel de mero espectador da campanha eleitoral para atuar como agente direto da comunicação.
Popularidade digital versus relevância real
Trata-se de uma evolução saudável, mas que impõe um desafio central: não confundir popularidade digital com relevância política. Uma postagem pode acumular milhares de visualizações sem representar qualquer impacto na vida real das comunidades. Da mesma forma, um projeto legislativo sério e necessário pode receber poucas curtidas nas redes e, ainda assim, ser transformador para o município.
O algoritmo impulsiona o alcance da mensagem, mas são a postura ética, o trabalho consistente e o compromisso público que constroem uma trajetória respeitada.
Inteligência Artificial, regras do TSE e o compromisso humano
Vivemos em um período em que a verdade leva tempo para ser absorvida, enquanto a desinformação se espalha em minutos por meio de montagens, falas descontextualizadas e vídeos gerados artificialmente. Atento a essa realidade, o Tribunal Superior Eleitoral atualizou as normas de propaganda pela Resolução TSE nº 23.755/2026, impondo transparência obrigatória sobre conteúdos gerados por inteligência artificial e vetando materiais sintéticos manipulados às vésperas da votação.
Ao eleitor cabe a prudência: verificar antes de repassar, questionar antes de acreditar e conhecer antes de julgar. Ao político cabe a consciência de que redes sociais não são mero balcão de vaidades, mas espaço cívico de prestação de contas. Depois da curtida vem a cobrança; depois do vídeo vem a dura realidade das cidades.
A tecnologia renovou o modo de fazer campanha, mas a essência da política permanece intocada: olhar no olho das pessoas e lembrar que, por trás de cada perfil digital, existe um cidadão — e que, por trás de cada voto, repousa uma esperança legítima de futuro.
Sérgio Rosa
Advogado, presidente da Subseção da OAB Sumaré por três gestões (2004/2006, 2007/2009 e 2010/2012) e vereador na legislatura 2017/2020. Colunista do SPASSO Cidades.
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