Gestão Tarcísio em SP: balanço de pedágios, Sabesp e escolas cívico-militares divide opiniões
Concessões com free flow, desestatização do saneamento e presença militar em escolas marcam mandato de Tarcísio de Freitas e dividem avaliações.

A gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) chega à reta final de seu primeiro mandato tendo como uma de suas principais marcas a ampliação da participação da iniciativa privada na infraestrutura paulista. Concessões rodoviárias, privatização da Sabesp e novos modelos para a educação foram defendidos pelo governo como caminhos para ampliar investimentos e melhorar serviços. Parte dessas políticas, entretanto, também acumulou críticas, resistência popular e questionamentos judiciais.
Free flow, novos pedágios e expansão dos radares
Nas rodovias, talvez esteja uma das contradições mais visíveis para o motorista. O governo avançou em novos contratos de concessão e na implantação do chamado free flow, sistema no qual pórticos eletrônicos substituem as tradicionais praças físicas de pedágio. Atualmente, já existem cobranças eletrônicas em trechos como Rodoanel Norte, Noroeste Paulista, Tamoios, Raposo Tavares e Litoral Paulista. Em alguns projetos, novas cobranças foram previstas em rodovias ou trechos anteriormente livres de pedágio.
O governo argumenta que o novo modelo permite tarifas proporcionais à distância percorrida, descontos para usuários frequentes e investimentos bilionários nas estradas. Em contratos como os da Rota Sorocabana e Nova Raposo, houve inclusive redução das tarifas de praças já existentes.
O problema está justamente na outra ponta da equação: mesmo quando o valor individual da tarifa diminui, a multiplicação dos pontos de cobrança amplia os locais onde o motorista passa a pagar para circular. A resistência foi suficiente para fazer o próprio governo rever projetos. Na Rota Sorocabana, por exemplo, a administração estadual reduziu de 13 para nove os pontos de cobrança previstos após mobilização da população e de lideranças da região.
A insatisfação aparece também nas pesquisas. Levantamento Datafolha apontou que apenas 31% dos paulistas classificaram como ótimo ou bom o custo-benefício das estradas pedagiadas, enquanto 36% consideravam ruim ou péssimo.
Ao mesmo tempo, São Paulo vive uma expansão expressiva da fiscalização eletrônica. O contrato do DER prevê 649 radares em mais de 12 mil quilômetros de rodovias estaduais não concedidas. Em setembro de 2025 havia 302 equipamentos em funcionamento; em março de 2026, o número já alcançava 636. Segundo o DER, os locais são definidos a partir de critérios técnicos como histórico de acidentes, excesso de velocidade e travessia de pedestres. Fiscalização de velocidade é instrumento indispensável de segurança viária; contudo, a combinação entre mais pontos de cobrança e expansão acelerada de radares explica por que a política rodoviária passou a ser sentida diretamente no bolso dos condutores.
Privatização da Sabesp e a percepção do usuário
Outra grande aposta de Tarcísio foi a privatização da Sabesp, concluída em 2024. O governo sustentou que a mudança permitiria antecipar metas de universalização do saneamento básico e destravar investimentos bilionários. Dois anos após o leilão, entretanto, a medida segue dividindo opiniões.
Pesquisa Datafolha revelou que 54% dos paulistas permanecem contrários à venda da estatal, contra 31% favoráveis. Quando questionados sobre a qualidade do serviço após a transferência, 51% disseram não perceber diferença, 28% afirmaram que piorou e apenas 14% identificaram melhora.
A companhia também passou por reestruturação no quadro funcional. Durante debate eleitoral, o governador afirmou que o número de trabalhadores havia permanecido estável após a desestatização; todavia, registros de entidades sindicais apontam mais de 2 mil desligamentos somando demissões e planos de demissão voluntária.
Escolas cívico-militares e os limites no STF
Na educação, outra bandeira emblemática da gestão encontrou fortes resistências. O modelo de escolas cívico-militares começou a operar em 100 unidades de 88 municípios, após impasses e disputas judiciais. No formato adotado em São Paulo, policiais militares da reserva atuam como monitores de apoio à disciplina, segurança e valores cívicos, enquanto o conteúdo pedagógico permanece sob condução exclusiva do corpo docente.
Críticos apontam o custo e as prioridades orçamentárias do programa: o gasto adicional é estimado em cerca de R$ 17 milhões anuais para remuneração dos militares da reserva, que podem receber cerca de R$ 6 mil mensais pela carga horária máxima, além dos proventos de aposentadoria.
A controvérsia foi levada ao Supremo Tribunal Federal. No julgamento sobre o programa paulista, o relator Gilmar Mendes reconheceu a possibilidade de colaboração de policiais da reserva em atividades extracurriculares, mas delimitou salvaguardas estritas: proibição de interferência nas funções pedagógicas, manutenção da direção com servidores civis, exigência de adesão prévia da comunidade escolar e vedação ao uso de hinos ou símbolos que exaltem exclusivamente a doutrina militar.
Balanço de gestão no centro do debate eleitoral
Pedágios, radares, saneamento e ambiente escolar configuram agendas com impactos diretos no cotidiano da população. De um lado, a administração estadual apresenta planos de obras, metas de atração de capital privado e modernização de processos; de outro, setores críticos questionam despesas públicas, prioridades sociais e as contrapartidas entregues aos cidadãos.
Às vésperas de nova disputa eleitoral, são essas realizações práticas que moldam o julgamento popular sobre o primeiro mandato de Tarcísio. Mais do que teses teóricas sobre concessões ou privatizações, o debate ganha tração a partir dos resultados concretos sentidos pelos paulistas no dia a dia.
(Da Redação)
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