Estudo da Unicamp revela que quase metade dos professores universitários muda de emprego no Brasil
Pesquisa baseada em microdados da Rais entre 2003 e 2021 aponta alta rotatividade no setor privado, acúmulo de cargos e desigualdades salariais de gênero na docência.

Mapeamento desmistifica estabilidade absoluta na carreira acadêmica
Ao contrário da percepção comum que associa a carreira acadêmica à estabilidade permanente em uma única instituição de ensino superior, 46,9% dos professores universitários no Brasil vivenciaram ao menos um evento de mobilidade empregatícia no país entre 2003 e 2021. A conclusão integra uma pesquisa abrangente conduzida por especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicada no periódico internacional Research in Higher Education.
O levantamento foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-Geopi) e do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Unicamp, com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O estudo foi coordenado pela pesquisadora Ana Maria Carneiro, em parceria com os autores Ana Maria Nunes Gimenez, Eduardo Rodrigues Capocchi, Luiza Maria Capanema Bezerra e Luciane Graziele Pereira Ferrero.
Diferenças entre setor público e faculdades privadas
Para obter uma amostragem fiel da realidade nacional — contornando as limitações de plataformas internacionais como o identificador Orcid, restrito a cerca de 8% do corpo docente brasileiro —, o grupo utilizou microdados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego, acessados por meio de convênio institucional da Unicamp.
A investigação identificou quatro padrões de conduta profissional: vínculo exclusivo de longa duração, acúmulo simultâneo de cargos, transições de carreira e mudança com interrupção temporária. Universidades públicas consolidadas, com forte dedicação à pesquisa científica e pós-graduação, registraram os menores índices de rotatividade. Por outro lado, a maior oscilação foi verificada em centros universitários e faculdades privadas, onde o modelo de remuneração por hora-aula com frequência empurra os professores para múltiplos vínculos com o objetivo de assegurar renda mensal básica.
O maior pico de mobilidade geográfica foi registrado entre 2007 e 2014, período associado às políticas federais do programa Reuni, que promoveu a expansão de campi universitários no interior do país e impulsionou concursos públicos. Na maior parte dos casos, no entanto, as mudanças ocorreram em trajetórias de curta distância — raios de até 50 quilômetros dentro das mesmas regiões metropolitanas ou estados vizinhos, especialmente no Sul e Sudeste.
Impactos da desigualdade de gênero e projeção internacional
O estudo apontou barreiras expressivas de gênero no mercado educacional. As professoras realizam deslocamentos geográficos em distâncias sensivelmente menores do que seus colegas homens e sofrem penalizações salariais: mulheres que usufruíram de licença-maternidade no primeiro contrato de trabalho tenderam a manter valores de hora-aula inferiores e vínculos de menor duração ao longo da carreira. Além disso, homens seguem predominantes em áreas tecnológicas e de pesquisa avançada, enquanto as mulheres concentram-se no ensino básico de graduação.
A relevância dos dados rendeu à equipe da Unicamp o convite para integrar o consórcio global Future Academic Profession, que investiga as transformações no magistério superior em escala internacional.
Serviço
Estudo: Mobilidade de Docentes do Ensino Superior no Brasil (2003–2021)
Instituição responsável: Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) e Lab-Geopi / Unicamp
Publicação: Periódico científico Research in Higher Education
Apoio financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
(Fonte: Unicamp)
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