Caminhada reúne centenas em Hortolândia, mas alta de 126% nos estupros exige ações urgentes do poder público
Mesmo com forte adesão ao Agosto Lilás, salto de 26 para 59 ocorrências no 1º semestre evidencia limites da conscientização e cobra articulação real entre Prefeitura e Estado.

Centenas de pessoas participaram no último domingo (30) da Caminhada Agosto Lilás, promovida pela Prefeitura de Hortolândia como parte das ações de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. A mobilização levou moradores às ruas, ofereceu orientação às participantes e reforçou uma pauta que precisa permanecer de forma contínua no debate público. O problema é que os próprios números recentes da cidade mostram que conscientizar, embora indispensável, já não é suficiente.
A caminhada partiu da Avenida da Emancipação e seguiu até o Observatório Ambiental Parque Escola (OAPE), no Jardim Santa Clara do Lago. Vestidos de lilás, os participantes também contribuíram com a arrecadação de absorventes destinados a mulheres em situação de vulnerabilidade. No encerramento, equipes do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e do Conselho da Mulher ofereceram orientações ao público.
Adesão popular e a pauta do Agosto Lilás
A ação encerrou a programação oficial do Agosto Lilás no município, que incluiu palestras, rodas de conversa, atividades em unidades de saúde e debates educativos. São iniciativas relevantes para informar vítimas sobre seus direitos, incentivar denúncias e dar visibilidade à rede de acolhimento disponível.
No entanto, a eficácia desse modelo encontra um limite claro quando confrontada com as estatísticas criminais locais.
O salto de 126,9% nos registros oficiais da SSP-SP
Na semana passada, reportagem do SPASSO Cidades revelou que os registros de estupro e estupro de vulnerável mais que dobraram em Hortolândia. Dados consolidados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) apontam que o município saltou de 26 ocorrências entre janeiro e junho de 2025 para 59 no mesmo período deste ano — uma alta de 126,9%.
Foram 33 registros a mais em apenas seis meses, alcançando a alarmante marca de quase uma ocorrência a cada três dias.
O limite da conscientização diante da violência real
É diante desse cenário que a mobilização popular precisa ser colocada em perspectiva. Mobilizar pessoas, distribuir folhetos e repudiar publicamente a violência são atos necessários, mas que não substituem políticas operacionais capazes de impedir que mulheres continuem sendo vitimadas.
Parte considerável da infraestrutura inicial de apoio está sob gestão municipal. Hortolândia conta com o CRAM, que presta atendimento psicológico, social e assistência jurídica, além de encaminhamentos para saúde e assistência social. Contudo, o enfrentamento à violência não pode se limitar às portas dos serviços de acolhimento quando o dano já ocorreu.
É imperativo mapear territórios críticos, entender perfis de maior vulnerabilidade, aperfeiçoar canais de identificação precoce de abusos em escolas e unidades de saúde, e assegurar pronta resposta institucional diante de qualquer sinal de risco.
Articulação urgente entre município e Governo do Estado
Investigações, prisões de agressores e patrulhamento ostensivo dependem diretamente do Governo do Estado por meio da Polícia Militar, Polícia Civil e Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Um salto estatístico superior a 100% em crimes sexuais exige compartilhamento imediato de inteligência, planejamento conjunto e ações preventivas e repressivas sob medida para Hortolândia.
Soma-se a isso a complexidade de que parcela expressiva dessas violações ocorre dentro do ambiente doméstico, envolvendo agressores conhecidos e vitimando crianças e adolescentes. Nesses contextos, as redes de Saúde, Educação e Assistência Social são a primeira barreira para identificar e interromper ciclos silenciosos de abuso.
Romper o silêncio nas ruas em agosto é louvável. Porém, quando os estupros crescem 126,9% em apenas um ano, a cor lilás precisa ser acompanhada por medidas duras e articuladas nos gabinetes, delegacias, salas de aula e bairros. A sociedade já demonstrou disposição para se mobilizar; agora, Prefeitura e Estado precisam demonstrar capacidade real de conter a escalada.
(Da Redação)
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