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Quem tem medo de investigação? O caso Vorcaro não pode ter blindados no STF e na política

Elaine AmaralElaine Amaral5 min de leitura

O caso Daniel Vorcaro está se transformando em um daqueles raros episódios da política brasileira capazes de colocar à prova a coerência de praticamente todo mundo. De um lado, aparecem relações, conversas e negócios envolvendo pessoas próximas ao ministro Alexandre de Moraes. De outro, milhões de reais destinados ao projeto “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro, além das relações do ex-banqueiro com integrantes da família do ex-presidente. Agora, também surgem questionamentos envolvendo André Mendonça.

Não me interessa se o nome é Alexandre de Moraes, André Mendonça, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou qualquer outro personagem poderoso de Brasília. Se existem fatos suficientemente relevantes para levantar suspeitas, eles precisam ser esclarecidos.

Suspeitas sérias que exigem transparência

As revelações mais recentes sobre Alexandre de Moraes são sérias e precisam ser esclarecidas. Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro indicam uma relação que merece explicações, enquanto o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, já vinha levantando questionamentos. Agora, o conteúdo obtido pela Polícia Federal ampliou ainda mais a necessidade de transparência.

Daniel Vorcaro também aparece profundamente relacionado ao financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. Reportagens apontaram milhões destinados ao projeto e tratativas envolvendo Flávio e Eduardo Bolsonaro, além de outros personagens ligados ao bolsonarismo. Que se investigue também.

E se existem questionamentos sobre André Mendonça, que hoje conduz parte das apurações envolvendo o caso Master, eles igualmente não podem ser ignorados. O próprio ministro confirmou ter recebido Daniel Vorcaro em uma reunião em março de 2025. Mendonça afirma que o encontro ocorreu uma única vez, que se limitou a ouvir o empresário e que posteriormente votou contra interesses relacionados a ele. Ótimo. Então que os fatos sejam esclarecidos e que não reste dúvida.

A seletividade destrói o combate à corrupção

Há quem tenha descoberto repentinamente uma enorme preocupação com as relações entre poder econômico e ministros do Supremo depois que apareceram as mensagens envolvendo Alexandre de Moraes, mas demonstra muito menos entusiasmo quando o caminho do dinheiro leva ao filme sobre Jair Bolsonaro.

Do outro lado, há quem queira concentrar toda a discussão exclusivamente em Bolsonaro, no “Dark Horse” e em seus filhos, como se as revelações envolvendo integrantes do Supremo pudessem simplesmente ser colocadas debaixo do tapete. Essa seletividade destrói qualquer discurso sério de combate à corrupção.

Não existe investigação republicana quando o princípio é “investigue meu adversário e poupe meu aliado”. É justamente por isso que considero equivocada a tentativa de transformar o caso Master simplesmente em mais um capítulo da interminável guerra entre bolsonaristas e antibolsonaristas. Daniel Vorcaro circulou entre pessoas poderosas. Seu dinheiro e suas relações chegaram a diferentes ambientes políticos, empresariais e institucionais.

Sem blindagem para aliados ou adversários

Se houve irregularidades relacionadas ao financiamento do “Dark Horse”, precisamos saber. Se integrantes da família Bolsonaro participaram de alguma conduta ilegal, que sejam responsabilizados. Se não participaram, que a investigação esclareça isso. Se Alexandre de Moraes manteve relações incompatíveis com as responsabilidades de um ministro do Supremo, precisamos saber. Se não houve ilegalidade ou conflito que comprometa sua atuação, que uma apuração séria também esclareça isso. Se André Mendonça teve relações com Vorcaro que ultrapassaram aquilo que declarou publicamente, investigue-se. Se o encontro foi exatamente aquilo que o ministro afirma ter sido, os fatos poderão demonstrar.

Essa distinção parece ter sido esquecida no Brasil. Uma investigação existe justamente para descobrir se houve crime, irregularidade, conflito de interesses ou absolutamente nada disso. É somente depois da apuração, respeitados o contraditório e a defesa, que se pode falar em responsabilidade.

Por isso me incomoda ver pessoas que passaram anos dizendo defender o combate à corrupção agora procurando argumentos para limitar determinadas investigações. E me incomoda igualmente ver aqueles que defenderam investigações amplas contra seus adversários políticos se mostraram incomodados quando as perguntas chegam perto de personagens com os quais possuem afinidade.

Não quero uma investigação apenas sobre Alexandre de Moraes. Não quero uma investigação apenas sobre Bolsonaro. Não quero que André Mendonça seja blindado simplesmente porque foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, assim como não quero que Moraes seja blindado porque se tornou um símbolo do enfrentamento ao bolsonarismo.

Abram os documentos e sigam o dinheiro

Quero saber por que Daniel Vorcaro tinha acesso a tantas pessoas poderosas. Quero saber quais interesses estavam envolvidos nessas relações. Quero saber de onde saiu e para onde foi cada valor relevante sob suspeita. Quero saber o que houve com o “Dark Horse”. Quero saber qual era a natureza das relações do banqueiro com integrantes do Supremo. E quero que qualquer eventual ilegalidade encontrada seja tratada da mesma maneira, independentemente do sobrenome ou da ideologia do envolvido.

Abram os documentos. Sigam o dinheiro. Ouçam os envolvidos. Garantam defesa a todos. Investiguem Bolsonaro e seus filhos quando houver fundamento. Investiguem Alexandre de Moraes. Investiguem André Mendonça. Investiguem empresários, intermediários e qualquer outra autoridade que apareça de maneira relevante nas apurações.

Porque corrupção não tem lado político. E Justiça que escolhe quem pode ou não ser investigado deixa de ser Justiça para se transformar em instrumento de torcida.

(Elaine Amaral / Especial para o SPASSO Cidades)

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