Spasso Cidades
Colunistas

No interior, o nome vale mais que a sigla

Elaine AmaralElaine Amaral5 min de leitura

Na política nacional, a sigla partidária pode decidir uma eleição. Há partidos que carregam eleitorados extremamente fiéis e outros que enfrentam índices elevados de rejeição. Dependendo do momento político, estar associado a determinado partido pode abrir portas ou representar um peso enorme para uma candidatura.

No interior, porém, existe uma dinâmica diferente. Evidentemente, a legenda importa. Em cidades mais conservadoras, candidatos identificados com a esquerda podem encontrar maior resistência, assim como o ambiente político nacional influencia as disputas municipais. Mas, quando chega a hora do voto, principalmente nas eleições locais, muitas vezes existe algo mais poderoso que a sigla impressa ao lado do candidato: o nome que aparece na urna.

A força do contato pessoal e da confiança

O eleitor do interior vota muito em quem conhece. Vota naquele político que acompanha há anos, que já administrou sua cidade, que encontrou no bairro, que conhece pela família ou cuja trajetória aprendeu a respeitar. É uma relação muito mais pessoal do que ideológica.

Hortolândia talvez seja um dos melhores exemplos da nossa região. Angelo Perugini construiu uma relação política tão forte com a cidade que atravessou diferentes momentos da política nacional e diferentes filiações partidárias. Esteve no PT, passou pelo PDT e chegou ao PSD. Seu eleitorado, porém, não desapareceu a cada mudança de legenda.

O caso de Angelo e Ana Perugini em Hortolândia

Porque boa parte daqueles votos não pertencia ao partido. Pertencia a Angelo Perugini. Mesmo quando o antipetismo cresceu intensamente no Brasil, Hortolândia continuou demonstrando uma dinâmica eleitoral própria. Isso acontece porque as eleições municipais não são simplesmente reproduções menores da disputa presidencial. O eleitor pode rejeitar um partido nacionalmente e, ao mesmo tempo, votar em um político daquele mesmo partido para administrar sua cidade.

Em Hortolândia, Ana Perugini também carrega um sobrenome profundamente associado à história política recente do município. Sua atuação própria como deputada evidentemente importa, mas o nome Perugini possui um significado eleitoral que nenhuma troca de sigla consegue produzir artificialmente.

A dinâmica eleitoral em Sumaré: Dalben e Henrique

Sumaré também oferece bons exemplos. Henrique do Paraíso não chegou à Prefeitura simplesmente porque estava filiado ao Republicanos. O partido ofereceu estrutura política e eleitoral, evidentemente, mas quem apareceu na urna foi Henrique. Ele já possuía trajetória própria, havia sido vereador, tinha exposição política e construiu uma relação com uma parcela significativa do eleitorado. Se bastasse carregar uma boa sigla, qualquer candidato do mesmo partido teria desempenho semelhante. Sabemos que não funciona assim.

O mesmo pode ser observado na trajetória de Luiz Dalben. Seu caminho político foi favorecido por um sobrenome extremamente conhecido em Sumaré. Dirceu Dalben construiu durante décadas um capital eleitoral que posteriormente também passou a beneficiar o filho. Luiz, naturalmente, precisou construir sua própria trajetória. Governou Sumaré por dois mandatos consecutivos e deixou sua própria marca política. Mas seria ingenuidade ignorar que, no início, o sobrenome Dalben representava uma enorme vantagem eleitoral. Mais uma vez, o eleitor estava olhando para algo maior que a legenda.

O limite de padrinhos e legendas nacionais

Isso ajuda a explicar um erro que vejo alguns candidatos cometerem constantemente: tentar transformar o partido em sua própria identidade. Querem ser conhecidos como “o candidato do PL”, “o candidato do PT”, “o candidato de Bolsonaro”, “o candidato de Lula” ou o representante local de alguma liderança nacional. Isso pode funcionar até determinado ponto. Uma legenda forte pode fornecer estrutura, recursos, militância e um eleitorado inicial. Um padrinho político nacional também pode ajudar um desconhecido a aparecer. Mas aparecer não significa conquistar confiança.

No interior, o eleitor encontra o político no supermercado, na igreja, na festa do bairro, no comércio, no posto de saúde e, muitas vezes, conhece alguém que conhece pessoalmente o candidato. A distância entre representante e representado é muito menor. Por isso, a reputação local pesa tanto.

Uma pessoa conhecida, carismática e respeitada pode conseguir votos mesmo carregando uma sigla que enfrenta resistência naquela cidade. Da mesma maneira, um partido extremamente popular entre determinado eleitorado dificilmente consegue transformar automaticamente alguém desconhecido ou rejeitado em uma liderança municipal.

A construção da história política

Partido pode emprestar número. Pode oferecer fundo eleitoral. Pode entregar tempo, estrutura e alianças. Pode aproximar uma candidatura de Lula, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outra liderança. O que partido nenhum consegue entregar pronto é história. A história política é construída ao longo dos anos. É resultado de presença, acertos, erros, relacionamentos e da percepção que a população desenvolve sobre aquela pessoa.

Isso será particularmente interessante nas eleições deste ano. Muitos candidatos da nossa região tentarão transformar força municipal em votos para deputado estadual ou federal. Alguns buscarão apoio nas grandes disputas ideológicas nacionais. Outros apostarão principalmente no próprio histórico dentro de suas cidades. E aí descobriremos novamente quem realmente possui votos e quem apenas estava próximo de alguém que os possuía. Porque existe uma diferença enorme entre estar em um partido forte e ser eleitoralmente forte.

No interior, principalmente, uma sigla pode ajudar bastante. Pode até atrapalhar bastante. Mas, no final, nome vale mais que sigla.

(Elaine Amaral / Especial para o SPASSO Cidades)

CompartilharWhatsAppFacebookX / Twitter

Comentários

Participe da conversa

Entre para comentar

Escolha Google ou receba um código no seu e-mail.

Veja Também