Jovens da periferia de Campinas criam tecnologia própria, moda sustentável e arte contra a crise climática
Iniciativas no Campo Belo, Campo Grande, Oziel e Parque Itajaí colocam em prática os achados da pesquisa JUCAMP com servidores comunitários, ateliê de costura, batalhas de rima e hortas urbanas.

Moradores do Campo Belo, Campo Grande, Parque Oziel e Parque Itajaí, em Campinas, começaram a acompanhar os desdobramentos práticos da pesquisa JUCAMP (Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas). Quatro iniciativas criadas e lideradas por jovens de territórios periféricos da cidade receberam financiamento e suporte técnico para implementar projetos de cartografia digital, ateliê têxtil sustentável, educação pelo hip-hop e agroecologia comunitária.
A iniciativa foi articulada pela organização Em Movimento, em parceria com a Minha Campinas e a Rede Conhecimento Social (ReCoS), com investimento social estratégico da Fundação FEAC. O objetivo central é transformar os diagnósticos científicos sobre o impacto do clima em ações operacionais protagonizadas pelas próprias comunidades.
“O retorno aos territórios foi um compromisso central desde a concepção do estudo. Apoiar essas quatro iniciativas é garantir que a pesquisa não seja apenas um documento de prateleira, mas um catalisador para que os próprios moradores documentem, analisem e enfrentem os problemas de seus bairros”, afirma Iasmim Vieira, coordenadora de projetos do Em Movimento.
“Para a Fundação FEAC, apoiar esse movimento é reconhecer as juventudes não apenas como quem vivencia os impactos das mudanças climáticas, mas como atores capazes de produzir soluções, mobilizar suas comunidades e incidir sobre a realidade da cidade. É sobre construir com as juventudes, e não para elas”, reforça Tatiane Zamai, gerente de Desenvolvimento Social da Fundação FEAC.
Cartografia digital e servidores comunitários no Campo Belo
O projeto Cartografia Climática Periférica, desenvolvido pelo coletivo Assaltar as Nuvens, capacita jovens do Campo Belo em tecnologia de código aberto e Geração Cidadã de Dados (GCD). O grupo está estruturando servidores autônomos e painéis de visualização próprios para mapear e georreferenciar pontos de alagamento, ilhas de calor e descarte irregular de resíduos no bairro.
“A tecnologia é um campo de disputa política. Quando a gente constrói a ferramenta com dados do nosso próprio território, a denúncia das vulnerabilidades ganha força e não depende de estimativas genéricas ou corporativas”, explica João Augusto Paranhos, idealizador do coletivo. “Os jovens deixam a posição de consumidores de tecnologia para atuar como desenvolvedores e multiplicadores comunitários, produzindo uma base pública de dados para cobrar soluções do poder público.”
Hip-hop, debate sobre calor extremo e cultura urbana no Campo Grande
No Distrito do Campo Grande, o Cursinho Popular Responsa! desenvolve o projeto “Rima e Território: Quem Tem Direito à Cidade?”, direcionado a 80 estudantes do pré-vestibular comunitário e trabalhadores precarizados, a exemplo de entregadores de aplicativo submetidos a jornadas sob calor extremo.
O ciclo formativo de seis encontros debate racismo ambiental, dinâmica urbana e diálogos com MCs da tradicional Batalha do Cálice. O encerramento contará com a Batalha Responsa!, disputa de rimas de improviso baseada nos desafios socioambientais da região, reunindo 16 MCs de várias cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC).
Economia circular e ateliê de upcycling no Oziel, Monte Cristo e Gleba B
Nos bairros Parque Oziel, Monte Cristo e Gleba B, a iniciativa OMG — Moda Sustentável estruturou um ateliê-escola de upcycling. O projeto reaproveita cerca de 200 peças de vestuário descartadas para qualificar 30 jovens em técnicas de costura criativa, customização e modelagem.
As oficinas estimulam a autonomia profissional, a conscientização sobre os impactos da indústria têxtil e a geração de renda local por meio da economia circular, culminando em um desfile e mostra comunitária com as peças autorais criadas pelos participantes.
Agroecologia, soberania alimentar e cultura popular no Parque Itajaí
No Parque Itajaí, o coletivo NaViela realiza o projeto “Samba na Horta”, articulando cultura periférica, comunicação popular, agroecologia e segurança alimentar. A segunda edição reuniu cerca de 300 pessoas em um encontro comunitário.
O evento promoveu rodas de conversa com jovens da região em parceria com iniciativas locais, como a Horta Comunitária do Itajaí, Cultura na Base e Vegano Periférico, debatendo o direito à cidade e a soberania nutricional frente às secas e ondas de calor na periferia.
Articulação da pesquisa JUCAMP e apoio da Fundação FEAC
O conjunto das intervenções reforça o papel da ciência cidadã articulada à filantropia comunitária em Campinas. Com sede na cidade, a Fundação FEAC investiu mais de R$ 34 milhões em recursos próprios em 2025 para impulsionar programas sociais e fortalecer Organizações da Sociedade Civil (OSCs) em três eixos prioritários: Acesso a Direitos Sociais, Inclusão Produtiva e Convivência Familiar e Comunitária.
(Fonte: Fundação FEAC / Em Movimento / Verdelho Comunicação)
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