Entre o palco e as urnas: quando candidaturas viram ensaio e ameaçam o peso político de Sumaré
Candidaturas movidas a vaidade e fotos com autoridades esvaziam o debate de propostas e ameaçam a representação de Sumaré na Alesp e no Congresso.
Elaine Amaral3 min de leituraTem candidato que parece acreditar que eleição é temporada de celebridade. De repente, começa a andar pelas ruas, apertar a mão de desconhecidos, distribuir abraços, beijar crianças e posar para fotografias com pessoas que provavelmente nunca mais encontrará. Tudo devidamente registrado, publicado e transformado em material de campanha. É o candidato estrela.
Ele gosta de palco, de evento, de santinho e, principalmente, de fotografia ao lado de gente importante. Se conseguir uma foto com governador, ministro ou presidenciável, melhor ainda. Nas redes sociais, parece conhecer todo mundo. Durante a campanha, está em todos os bairros, abraça todos os comerciantes e descobre uma paixão repentina pelos problemas da cidade.
O problema começa quando termina a sessão de fotos e alguém pergunta: qual é o projeto?
Aí aparecem as respostas genéricas. Defender a família. Buscar mais recursos. Trabalhar pela saúde. Lutar pela educação. Trazer investimentos. Frases que poderiam estar no material eleitoral de qualquer candidato, de qualquer partido, em qualquer cidade brasileira.
Sumaré precisa discutir com seriedade esse fenômeno porque uma candidatura a deputado não deveria servir apenas como instrumento de projeção para a eleição municipal seguinte. Uma campanha estadual ou federal deveria existir para disputar uma cadeira e representar efetivamente a população na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional. E existe uma consequência que vai muito além da vaidade individual.
Quanto maior o número de candidaturas locais disputando o mesmo eleitorado, maior pode ser a pulverização dos votos. Em uma cidade do tamanho de Sumaré, que tem interesse direto em manter e ampliar sua representação política, candidaturas precisam ser discutidas também pelo que apresentam concretamente e pela capacidade de construir representação regional.
Isso não significa que alguém tenha menos direito de ser candidato. A democracia garante a qualquer cidadão que cumpra os requisitos legais o direito de colocar seu nome à disposição das urnas. Da mesma maneira, garante ao eleitor o direito de perguntar o que existe por trás daquele nome.
É candidatura para 2026 ou ensaio para 2028? Existe um projeto regional ou apenas um projeto pessoal? Quais propostas serão defendidas? Quais problemas de Sumaré esse candidato pretende levar ao Estado ou à União? O que fará caso seja eleito?
O bom representante não é necessariamente aquele que consegue a fotografia mais bonita, reúne mais gente em um evento ou aparece ao lado da maior autoridade. É aquele que consegue explicar por que deseja ocupar determinado cargo e o que pretende fazer com ele.
Campanha passa. Santinho vai para o lixo. Foto envelhece. O abraço eleitoral é rapidamente esquecido. O que permanece são as consequências das escolhas feitas nas urnas. Sumaré é grande demais para servir apenas de cenário para projetos pessoais. E seu eleitor merece muito mais do que candidatos que aparecem a cada eleição como estrelas e desaparecem assim que as luzes do palanque se apagam.
(Elaine Amaral / Especial para o SPASSO Cidades)
Comentários
Participe da conversa
Entre para comentar
Escolha Google ou receba um código no seu e-mail.



