Eleição não é final de futebol: o que muda na sua vida quando a comemoração acaba
Elaine Amaral reflete sobre a comemoração passageira das finais de futebol e o impacto real das eleições, que decidem tributos, salários, aposentadoria e o país dos próximos quatro anos.
Elaine Amaral4 min de leituraQuando o nosso time de futebol vence o campeonato, todo mundo vai para a rua. Tem buzina, bandeira, festa. Os jogadores levantam a taça, os bônus são pagos, cada um volta para o seu clube e, na segunda-feira, a maioria de nós está novamente trabalhando. Ficamos com a lembrança da vitória, algumas fotos e uma história para contar.
Na eleição é diferente.
Tem carreata, bandeira, buzina e comemoração também. O candidato eleito sobe no palanque, agradece aos eleitores, abraça os cabos eleitorais e comemora a vitória. Só que, quando a festa termina, começam os quatro anos de consequências. E algumas delas podem durar décadas.
É por isso que sempre me incomodou essa maneira de acompanhar eleição como quem acompanha uma final de campeonato. Fulano ganhou. Ciclano perdeu. Meu lado venceu. O seu foi derrotado. E depois?
Uma eleição não escolhe apenas quem ocupará uma cadeira. Escolhe quem decidirá sobre aposentadoria, salário, impostos, jornada de trabalho, saúde, educação, segurança, relações comerciais e sobre quanto o Estado arrecada e onde ele gasta. Não existem escolhas sem consequências.
Se você escolhe um candidato que defende um Estado menor, redução de impostos e um ajuste fiscal mais duro, precisa saber de onde virá a redução das despesas. Será da máquina administrativa? Dos benefícios tributários? Dos investimentos? Da Previdência? Dos programas sociais?
Nesta eleição existem candidatos defendendo justamente regras fiscais mais rígidas, privatizações, reformas administrativas, mudanças previdenciárias e redução de encargos. Existem outros propondo preservar ou ampliar programas sociais, direitos trabalhistas e despesas públicas. São projetos diferentes de país e precisam ser analisados como tal.
Não basta ouvir “vou cortar gastos” e aplaudir. É preciso perguntar: quais gastos? Também não basta ouvir “vou aumentar investimentos” e comemorar. É preciso perguntar: com qual dinheiro?
Quando alguém promete reduzir impostos, pergunte quais impostos serão reduzidos e como a perda de arrecadação será compensada. Quando promete ampliar benefícios, pergunte quanto custará e de onde virá o recurso.
A mesma lógica vale para os direitos trabalhistas. Existem propostas que defendem maior flexibilidade nas relações de trabalho, redução dos encargos sobre a folha e até regimes alternativos à CLT. Seus defensores argumentam que isso pode reduzir o custo da contratação e estimular a criação de empregos. Seus críticos alertam para o risco de precarização, remunerações menores e perda de proteção social.
Então pergunte novamente: o que exatamente o seu candidato propõe? Porque “modernizar as relações de trabalho” é uma frase bonita. Mas o que muda no seu salário? Nas suas férias? No seu FGTS? No seu 13º? Na sua jornada?
Por outro lado, ampliar direitos também tem consequências. Se uma proposta aumenta significativamente o custo da contratação, é legítimo perguntar como pequenas e médias empresas conseguirão absorvê-lo e quais serão os efeitos sobre emprego, preços e informalidade. É isso que precisamos discutir.
O mesmo acontece quando falamos da abertura da economia brasileira. Mais abertura comercial pode significar produtos importados mais baratos, maior concorrência e acesso a novos mercados. Mas determinados setores nacionais também podem enfrentar uma concorrência que não conseguem suportar, com impactos sobre empresas e empregos.
Política econômica é feita de escolhas. E as escolhas têm beneficiados, prejudicados, custos, riscos e consequências. Por isso, antes de votar, deveríamos fazer um exercício muito mais difícil do que escolher uma cor, um partido ou o candidato que aparece melhor em um vídeo de 30 segundos.
Quando seu candidato disser que vai reduzir impostos, pergunte quais. Quando disser que vai cortar gastos, pergunte onde. Quando disser que vai defender o trabalhador, pergunte como. Quando disser que vai gerar empregos, pergunte com quais medidas. Quando disser que vai proteger a aposentadoria, procure saber qual é sua proposta para a Previdência. Não estou dizendo aqui em quem você deve votar. Estou dizendo exatamente o contrário. Estou dizendo que você precisa saber em que está votando.
Porque no futebol podemos escolher um time por causa do nosso pai, da camisa, da cidade onde nascemos ou simplesmente porque nos apaixonamos por ele quando éramos crianças. Podemos ser irracionais. Faz parte da graça. Na política, essa irracionalidade custa caro. Quando o juiz apita o fim de uma partida, o resultado entra para a tabela. Quando as urnas são fechadas, o resultado entra na nossa vida.
Então, antes de comemorar a vitória do seu candidato ou lamentar sua derrota, talvez exista uma pergunta mais importante a fazer: Você realmente conhece as propostas dele? E, mais importante ainda: Você sabe em qual Brasil pretende acordar no dia 1º de janeiro?
(Elaine Amaral / Especial para o SPASSO Cidades)
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