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Disputa pelo legado de Ângelo Perugini coloca Ana e Cafu em caminhos opostos em Hortolândia

Cinco anos após a morte de Ângelo Perugini, divergência entre Zezé Gomes e Cafu César sobre apoios em 2026 antecipa o xadrez para 2028 em Hortolândia.

5 min de leitura
Willian Souza, Cafu César, Ana Perugini e Zezé Gomes em Hortolândia
Willian Souza (PT), Cafu César (PSB), a deputada estadual Ana Perugini (PT) e o prefeito Zezé Gomes

Poucos políticos deixaram uma marca tão profunda em uma cidade da região quanto Ângelo Perugini deixou em Hortolândia. Eleito prefeito quatro vezes, Perugini esteve no centro de um longo processo de transformação de um município que convivia com graves deficiências de infraestrutura e serviços públicos e que, nas décadas seguintes, ganhou importância econômica e regional.

Sua morte, em abril de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19, interrompeu seu quarto mandato, mas não encerrou o projeto político construído ao seu redor. Cinco anos depois, entretanto, começa a ficar cada vez mais evidente uma pergunta que deverá ganhar importância conforme se aproximam as eleições municipais de 2028: quem herdará politicamente o legado de Ângelo Perugini?

A eleição de 2026 como primeiro termômetro da divisão

A campanha de 2026 oferece algumas pistas claras. O prefeito Zezé Gomes apoia a reeleição da deputada estadual Ana Perugini (PT), enquanto seu vice, Cafu César (PSB), escolheu outro caminho e trabalha pela candidatura de Willian Souza (PT), liderança política de Sumaré.

Perugini construiu durante décadas uma extensa rede de lideranças, militantes, agentes públicos e eleitores. É esse patrimônio político que continua extremamente valioso em Hortolândia. E dois personagens possuem ligação particularmente forte com essa história: Ana Perugini e Cafu César.

Ana Perugini: trajetória parlamentar e vínculo histórico

Ana Perugini possui uma trajetória própria e anterior à atual disputa. Chegou a Hortolândia ainda na década de 1970, participou de movimentos populares e iniciou sua carreira parlamentar como vereadora da cidade.

Depois, foi eleita deputada estadual, deputada federal e retornou à Assembleia Legislativa, onde atualmente exerce seu terceiro mandato como deputada estadual. Sua trajetória política esteve durante décadas ligada à de Ângelo e ao mesmo movimento político que participou da transformação de Hortolândia.

Sua relação com a cidade, portanto, não começa nem termina com o sobrenome Perugini. Mas a ligação histórica com Ângelo é inegavelmente um componente importante de seu capital político.

Cafu César: ascensão na gestão e aliança regional

Do outro lado está Cafu César. Sua ascensão política também está profundamente relacionada ao grupo de Perugini. Cafu participou da articulação política de suas campanhas, tornou-se secretário de Governo e passou a ocupar posição estratégica dentro da administração municipal.

Em diferentes ocasiões, o próprio Cafu fez questão de reivindicar essa proximidade. Na inauguração do novo Paço Municipal, por exemplo, homenageou publicamente Ângelo e lembrou que projetos estruturantes da cidade haviam sido idealizados pelo ex-prefeito. Posteriormente, Cafu tornou-se vice de Zezé Gomes e chegou ao segundo posto mais importante do Executivo municipal.

Sua trajetória sofreu uma interrupção em novembro de 2025, quando foi preso preventivamente durante a Operação Coffee Break, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas envolvendo licitações e contratos na área da educação. Cafu deixou a prisão no mês seguinte e, após decisões judiciais posteriores, recebeu autorização para retornar às funções públicas, reassumindo a Vice-Prefeitura em março deste ano. O caso permanece no campo das investigações, sem que a prisão represente condenação.

É justamente aqui que a candidatura de Willian Souza deixa de ser apenas uma questão eleitoral de Sumaré e passa a interferir diretamente no futuro político de Hortolândia. Zezé Gomes escolheu Ana Perugini. Cafu César escolheu Willian Souza. Na prática, prefeito e vice trabalham para candidatos diferentes à Assembleia Legislativa. Mais significativo ainda: Cafu optou por apoiar um candidato cuja principal base eleitoral está em Sumaré em vez da atual deputada estadual cuja trajetória política está diretamente ligada a Hortolândia.

Cada voto conquistado por Willian dentro de Hortolândia é um voto disputado no mesmo território eleitoral em que Ana precisa construir sua reeleição. E quanto maior for a capacidade de Cafu de transferir votos para o candidato de Sumaré, maior será a demonstração de sua própria força política dentro da cidade. Por isso, a eleição de outubro também funcionará como um termômetro.

O xadrez para a sucessão municipal de 2028

Por trás da eleição estadual existe uma disputa municipal que começa a ganhar forma. Zezé Gomes está em seu segundo mandato consecutivo à frente da Prefeitura e não poderá disputar novamente o cargo em 2028. Pela primeira vez desde a morte de Ângelo Perugini, portanto, Hortolândia deverá enfrentar uma eleição municipal sem uma sucessão naturalmente definida dentro do grupo.

É nesse cenário que Ana e Cafu aparecem como duas das lideranças com maior ligação política com o ciclo iniciado por Perugini. Não é possível afirmar hoje que ambos serão adversários em 2028, tampouco que o atual grupo chegará dividido à eleição municipal, mas 2026 começa a revelar interesses divergentes.

Se Cafu demonstrar capacidade de construir uma votação expressiva para Willian dentro de Hortolândia, sairá da eleição com uma demonstração importante de força própria. Se Ana mantiver uma votação robusta na cidade mesmo sem o apoio do vice-prefeito, demonstrará que sua relação com o eleitorado hortolandense permanece independente das estruturas municipais.

O legado de Ângelo Perugini dificilmente poderá ser apropriado por uma única liderança. Zezé Gomes foi seu vice e assumiu a responsabilidade de concluir projetos iniciados durante sua administração. Ana construiu ao lado daquele grupo uma carreira parlamentar de mais de duas décadas. Cafu participou diretamente da articulação política e administrativa dos governos de Perugini e posteriormente chegou à Vice-Prefeitura.

Quando as urnas forem abertas em outubro, além dos deputados eleitos, Hortolândia poderá descobrir quem, cinco anos depois da morte de Ângelo, consegue mobilizar a maior parcela do enorme capital político que ele deixou para trás.

(Da Redação)

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