De vice a prefeito: há 20 anos, sucessões e rompimentos redesenham o poder em Sumaré
De Antônio Bacchim e Luiz Dalben a Henrique do Paraíso, histórico municipal mostra como a vice-prefeitura se transformou no principal trampolim para o comando do Executivo.

Nas últimas duas décadas, a política de Sumaré desenvolveu uma característica peculiar: ocupar a vice-prefeitura tem sido um dos caminhos mais recorrentes para chegar ao comando do município. Antônio Bacchim, Luiz Dalben e Henrique do Paraíso chegaram à Prefeitura depois de ocuparem o posto de vice. Entre alianças, sucessões e rompimentos, a história mostra também que a relação aparentemente harmoniosa entre os dois ocupantes do Executivo nem sempre resiste quando chega o momento de escolher quem ficará com a cabeça da próxima chapa.
A era Dalben e a ascensão de Bacchim
Para entender essa sequência é preciso voltar ao governo de Dirceu Dalben, uma das principais lideranças políticas da história de Sumaré. Dalben assumiu a Prefeitura em 1997 tendo Antônio Bacchim como vice. Anos depois, Bacchim construiu seu próprio caminho eleitoral e chegou ao comando da cidade em 2005.
A sucessão não representou propriamente uma traição política entre os dois, mas mostrou algo que se repetiria posteriormente: o vice que chega à Prefeitura deixa de ser apenas parte do grupo que o levou até lá e passa a construir seu próprio espaço de poder. O grupo político de Bacchim ganhou identidade própria e Dalben acabou progressivamente mais distante da administração municipal depois da eleição do petista.
Ao final da era Bacchim, entretanto, o prefeito não conseguiu transformar sua força política em uma sucessão direta. O nome apoiado por seu grupo era Tito, do PT. O próprio vice-prefeito Vilson Alves também decidiu disputar a Prefeitura, mas sem o apoio de Bacchim terminou a eleição de 2012 na quarta colocação.
A aliança com Cristina Carrara e o rompimento de 2016
Foi justamente naquela disputa que outra relação entre prefeito e vice começou a ser construída, e posteriormente terminaria em um dos rompimentos políticos mais marcantes da história recente da cidade.
Cristina Carrara, esposa do ex-prefeito Paulino Carrara, entrou na disputa tendo Luiz Dalben como candidato a vice e contando com o apoio político de Dirceu Dalben. Tito chegava à eleição carregando a força do governo Bacchim, enquanto Cristina já acumulava derrotas em tentativas anteriores. A união entre Carrara e Dalben, porém, ajudou a formar uma chapa eleitoralmente competitiva, que terminou vencedora. Cristina não chegaria lá sem a força do nome Dalben.
Depois de chegar à Prefeitura, Cristina rompeu politicamente com o grupo de Dirceu Dalben e Luiz passou boa parte da administração distante do núcleo político da prefeita. O vice relatava a aliados que vinha sendo politicamente esvaziado dentro do governo. Antes mesmo do fim do mandato, estava evidente que a prefeita e vice seguiriam caminhos diferentes.
Em 2016, os dois lados se encontraram novamente, desta vez como adversários. Cristina tentou a reeleição, enquanto Luiz Dalben queria entrar. Em meio ao desgaste enfrentado pela administração e novamente respaldado pela estrutura política construída pelo pai, Luiz venceu e transformou a vice-prefeitura em trampolim para o principal gabinete do Executivo municipal.
A sucessão de 2024 e a vitória de Henrique do Paraíso
Luiz Dalben governou Sumaré por dois mandatos consecutivos tendo Henrique do Paraíso como vice-prefeito. Durante oito anos, a relação pública entre os dois foi marcada por proximidade. Henrique participou do governo e permaneceu politicamente associado à administração.
Quando Luiz precisou escolher quem apoiaria para disputar sua cadeira em 2024, havia mais de um aliado interessado no posto. Henrique esperava avançar de vice para candidato a prefeito. Willian Souza, que também havia integrado a base política de Luiz, possuía suas próprias pretensões. Mas o grupo Dalben escolheu outro caminho: o candidato apoiado pelo então prefeito foi Éder Dalben, tio de Luiz.
A decisão fragmentou antigos aliados. Henrique lançou candidatura própria, assim como Willian Souza. Os dois chegaram ao segundo turno, enquanto o candidato escolhido pelo prefeito ficou fora da disputa decisiva.
Henrique do Paraíso venceu a eleição de 2024 e sucedeu justamente o prefeito de quem havia sido vice durante oito anos. Mais uma vez, o número dois de uma administração conseguiu construir força política suficiente para chegar ao posto principal mesmo sem ser o escolhido pelo prefeito para sua sucessão.
O peso da vice-prefeitura como projeto de poder
A história ajuda a dimensionar o peso da vice-prefeitura em Sumaré. Bacchim foi vice de Dirceu antes de se tornar prefeito. Luiz foi vice de Cristina antes de derrotá-la. Henrique foi vice de Luiz antes de vencer a disputa pela sucessão. Em situações completamente diferentes, três antigos vices chegaram ao comando municipal.
Em Sumaré, alianças que pareciam sólidas já terminaram quando chegou a hora de decidir quem ocuparia o primeiro lugar da chapa. A vice-prefeitura, que deveria representar complementaridade administrativa, também se tornou historicamente uma importante plataforma para a construção de projetos políticos próprios.
Não significa que todo vice esteja destinado a romper com seu prefeito, muito menos que divergências políticas representem necessariamente traição. Ambições eleitorais são legítimas dentro da democracia. Mas a história recente de Sumaré mostra que lealdade política e projeto de poder caminham juntos apenas enquanto ambos apontam para a mesma direção.
Quando surge apenas uma cadeira para dois projetos, a política local já mostrou mais de uma vez qual dos dois costuma falar mais alto.
(Da Redação)
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