Chuvas e cancelamentos expõem a urgência de adaptar eventos e espaços públicos ao clima na RMC
Após temporais recordes em setembro e cancelamento de feiras na região, planejamento urbano precisa ir além da drenagem e repensar praças e estruturas ao ar livre.

Adaptação urbana além do combate a enchentes
A retomada das Feiras Noturnas de Nova Odessa nesta quarta-feira (16), depois de dias de cancelamentos provocados pelas chuvas, parece à primeira vista uma questão pontual. O episódio, porém, ajuda a revelar um desafio que tende a ocupar espaço cada vez maior no planejamento das cidades: se eventos meteorológicos extremos e períodos de instabilidade se tornam mais frequentes, adaptar os municípios não significa apenas combater enchentes e alagamentos. Será necessário repensar também como equipamentos públicos, áreas de lazer e espaços destinados a eventos são projetados e utilizados.
Em Nova Odessa, a melhora das condições climáticas permitirá o retorno da programação. Nesta quarta-feira acontece a Quarta Gastronômica do Jardim Marajoara, na Praça Vera Luzia Samartin, a partir das 18h. Na quinta-feira (17), a Feira Noturna volta à área externa da Rodoviária, no Jardim Santa Rosa, enquanto na sexta-feira (18) ocorre a programação do Jardim Santa Rita e Região.
São atividades aparentemente simples, mas que possuem impacto direto sobre pequenos comerciantes. Quando uma feira é cancelada, não desaparece apenas uma opção de lazer. Food trucks, artesãos e outros empreendedores deixam de trabalhar, produtos podem ser perdidos e a renda prevista para aquele dia deixa de entrar.
O problema ganha dimensão maior quando são considerados eventos de grande porte. Festivais, shows, feiras culturais e comemorações públicas exigem contratação de estruturas, fornecedores, equipes, artistas, segurança e logística. Um cancelamento ou adiamento pode significar despesas adicionais, renegociação de contratos e prejuízos tanto para organizadores quanto para trabalhadores e comerciantes que dependem dessas atividades.
Impactos meteorológicos e o cenário regional
A questão deixa de ser excepcional quando observados os dados meteorológicos recentes. Em apenas 14 dias, a cidade de São Paulo registrou 253,8 milímetros de chuva em setembro, três vezes a média climatológica de 83,3 milímetros para o mês e o maior acumulado para setembro desde 1943. Campinas chegou a 257,2 milímetros no período, o maior volume registrado desde 1961.
Não é possível atribuir isoladamente cada temporal às mudanças climáticas. A tendência de longo prazo, entretanto, é suficientemente conhecida para que o poder público incorpore o risco ao planejamento. O Instituto Nacional de Meteorologia aponta possibilidade de aumento da frequência, intensidade ou duração de eventos climáticos extremos, enquanto estudos divulgados pelo Cemaden projetam aumento de chuvas intensas e dos impactos potenciais de inundações e deslizamentos, inclusive nas regiões Sul e Sudeste e em áreas metropolitanas.
O cenário de 2026 acrescenta outro componente. O Inmet informou neste mês que as projeções apontam intensificação do El Niño até o final do ano, com elevada probabilidade de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026/2027. As previsões são atualizadas conforme novas observações são incorporadas e, portanto, não representam certeza sobre o comportamento do tempo em determinada cidade ou determinado dia, mas reforçam a necessidade de planejamento preventivo.
Estruturas adequadas e resiliência dos espaços públicos
Praças utilizadas regularmente para feiras podem contar com áreas cobertas adequadas. Centros de eventos podem ser concebidos para receber atividades que hoje dependem exclusivamente de espaços descobertos. Estruturas modulares podem permitir que determinadas programações continuem mesmo sob chuva. Sistemas de drenagem, pisos permeáveis, áreas de abrigo, proteção elétrica, rotas seguras de evacuação e protocolos específicos para ventos fortes, raios e precipitações intensas podem fazer parte do planejamento dos eventos.
Isso não significa que toda programação deva continuar independentemente das condições meteorológicas. Há situações em que cancelar é a única decisão responsável. Estruturas cobertas também não eliminam riscos associados a tempestades severas, descargas elétricas, rajadas de vento, enxurradas ou deslocamento do público. O objetivo da adaptação deve ser justamente ampliar a margem de segurança e reduzir a quantidade de cancelamentos provocados por condições para as quais é possível se preparar.
A responsabilidade também não deve recair exclusivamente sobre os municípios. Governos estaduais e federal podem desenvolver programas de financiamento, normas técnicas e políticas de adaptação capazes de auxiliar cidades a modernizar seus espaços públicos. O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece que a mudança do clima influencia a frequência e a intensidade de eventos extremos e que as respostas necessárias envolvem não apenas a redução das emissões, mas também medidas de adaptação aos efeitos que já estão ocorrendo.
Para municípios da Região Metropolitana de Campinas, essa discussão possui consequências econômicas importantes. Festas tradicionais, feiras gastronômicas, eventos esportivos, festivais e programações culturais movimentam restaurantes, ambulantes, hotéis, prestadores de serviços, artistas e pequenos empreendedores. Quanto maior a dependência de estruturas completamente abertas, maior também a vulnerabilidade dessa economia ao clima.
A discussão que fica para Nova Odessa e para as demais cidades da região é como deixar de tratar cada interrupção como uma excepcionalidade e começar a preparar os espaços públicos para uma realidade climática diferente daquela para a qual muitos deles foram projetados.
Adaptar as cidades às mudanças climáticas significa impedir que uma chuva intensa termine em tragédia. Mas também significa garantir, sempre que as condições de segurança permitirem, que a cidade continue funcionando mesmo quando o céu não colaborar.
Serviço
Retomada das Feiras Noturnas em Nova Odessa
Quarta-feira (16/09): Quarta Gastronômica – Praça Vera Luzia Samartin (Jardim Marajoara), a partir das 18h
Quinta-feira (17/09): Feira Noturna – Área externa da Rodoviária Municipal (Jardim Santa Rosa), a partir das 18h
Sexta-feira (18/09): Feira Noturna – Jardim Santa Rita e Região, a partir das 18h
(Da Redação)
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