20 anos sem se calar: a história, os desafios e a independência do SPASSO Cidades
Em artigo comemorativo de duas décadas do Jornal SPASSO Cidades, a fundadora Elaine Amaral resgata a trajetória de independência, os episódios de pressão e recolhimento de edições e a convicção de que a imprensa livre é indispensável para a democracia.
Elaine Amaral5 min de leituraVinte anos. Quando olho para trás e penso na trajetória do Jornal SPASSO Cidades, é difícil resumir tudo o que vivemos em duas décadas. Foram governos que começaram cercados de esperança e terminaram desgastados. Foram prefeitos, vereadores, deputados, secretários e lideranças que chegaram e partiram. Vimos dinastias políticas ruírem e, algum tempo depois, se reconstruírem. Vimos políticos que pareciam intocáveis perderem espaço, enquanto pessoas humildes, muitas vezes desacreditadas no início de suas trajetórias, conquistaram respeito e se consolidaram na vida pública.
A política mudou. As cidades mudaram. A maneira como as pessoas consomem informação mudou completamente. O SPASSO Cidades também mudou. Mas existe algo que atravessou todos esses anos sem mudar: a nossa convicção de que uma imprensa livre, independente e disposta a fiscalizar o poder é indispensável para a democracia.
Ao longo desses 20 anos, fomos criticados, pressionados, boicotados e perseguidos. Houve momentos em que publicar uma informação significava desagradar pessoas poderosas. Houve quem confundisse reportagem crítica com oposição política e quem acreditasse que questionar uma administração significava trabalhar para seus adversários. Governos passam. Nosso compromisso é com o leitor.
Talvez nenhum episódio tenha representado tão claramente essa luta quanto aquilo que enfrentamos durante as últimas eleições, quando edições do nosso jornal foram recolhidas. Para quem observa de fora, recolher exemplares pode parecer apenas retirar algumas folhas de papel de circulação. Para quem trabalha com jornalismo, o significado é muito maior. Quando se impede que uma publicação chegue ao leitor, o que está em jogo é o direito da sociedade de ter acesso à informação.
Vivemos aquilo com preocupação, indignação e, evidentemente, receio. Seria mentira dizer que durante 20 anos nunca sentimos medo. Sentimos. Quem enfrenta interesses poderosos, quem faz perguntas incômodas e quem publica aquilo que determinadas pessoas prefeririam manter escondido conhece os riscos dessa profissão. Coragem não é ausência de medo. É decidir que existem coisas mais importantes do que ele.
Continuamos porque a democracia não existe apenas no dia em que o eleitor entra na cabine e aperta o botão da urna. Democracia também existe nos quatro anos seguintes, quando alguém precisa acompanhar o que aqueles escolhidos pelo voto estão fazendo com o poder que receberam.
Alguém precisa perguntar onde o dinheiro público foi gasto. Alguém precisa acompanhar licitações e contratos. Alguém precisa ouvir o morador que espera meses por uma consulta, o trabalhador que passa horas esperando um ônibus, o servidor que denuncia problemas, a família que pede socorro e também o administrador público que tem resultados positivos para apresentar. A imprensa precisa estar lá para contar todas essas histórias.
Fiscalizar não é perseguir. Criticar não é torcer contra. Denunciar não significa condenar antecipadamente. O jornalismo responsável precisa ouvir, investigar, confrontar versões, apresentar documentos e permitir que o cidadão forme a própria opinião. É justamente por isso que a liberdade de imprensa incomoda tanto aqueles que gostariam de controlar a narrativa.
Em 20 anos, aprendemos que praticamente todo governante gosta da imprensa quando ela publica aquilo que lhe interessa. O verdadeiro compromisso com a liberdade de imprensa aparece quando a reportagem é desagradável, quando a manchete incomoda e quando as perguntas exigem explicações.
Talvez por isso eu considere que uma das maiores conquistas do SPASSO Cidades nestas duas décadas não esteja em uma reportagem específica, em uma edição histórica ou em qualquer reconhecimento que tenhamos recebido. Está simplesmente no fato de termos permanecido. Enquanto governos entraram e saíram, nós permanecemos.
O SPASSO Cidades não pertence a um governo, a um partido ou a um grupo político. Governantes precisam saber que poderão encontrar nestas páginas tanto o reconhecimento por aquilo que fizeram corretamente quanto perguntas difíceis sobre aquilo que precisa ser explicado. Essa independência não nos tornou imunes a pressões. Ao contrário: muitas vezes fez com que elas aumentassem. Mas nunca alterou aquilo que entendemos como nossa obrigação.
Chegamos aos 20 anos com cicatrizes, histórias e uma memória privilegiada da transformação política e social de nossa região. Assistimos a personagens que pareciam eternos deixarem o poder. Vimos outros que haviam sido derrotados retornarem. Vimos arrogância terminar em queda e simplicidade transformar desconhecidos em lideranças respeitadas. E aprendemos uma lição que duas décadas observando a política tornam impossível esquecer: o poder é sempre passageiro.
Por isso, este aniversário também pertence aos nossos leitores. Aos que pegavam o jornal impresso há 20 anos e continuam conosco. Aos que chegaram depois. Aos que hoje acompanham nossas reportagens pelo celular. Aos que concordam conosco e, principalmente, aos que discordam, mas reconhecem a importância de existir uma imprensa disposta a fazer perguntas. A cada um deles, o meu muito obrigada.
Se conseguimos chegar até aqui, foi porque vocês continuaram lendo, compartilhando, cobrando, criticando, denunciando e confiando em nosso trabalho. Essa relação é a razão pela qual um jornal regional consegue atravessar duas décadas em um período no qual tantas coisas mudaram dentro e fora do jornalismo.
Nos próximos anos, continuaremos fazendo aquilo que fizemos até aqui: buscando os fatos, cobrando respostas, dando espaço ao contraditório e levando para a luz aquilo que alguns prefeririam manter oculto.
Não sabemos quais governos veremos nascer nos próximos 20 anos. Não sabemos quais grupos políticos desaparecerão, quais retornarão e quais novas lideranças surgirão. Certamente veremos novas disputas, novas crises, novas conquistas e novas transformações nas nossas cidades.
Os primeiros 20 anos exigiram muita luta. Houve riscos, dificuldades e momentos em que teria sido mais confortável simplesmente permanecer em silêncio. Não permanecemos.
Que estes 20 anos sejam apenas o começo. Que os próximos 20 encontrem um SPASSO Cidades ainda mais forte, mais moderno e mais próximo de seus leitores, mas com a mesma convicção que nos trouxe até aqui: governos passam, políticos passam e o poder muda de mãos.
Agradeço a você, leitor, anunciante e cliente que acreditou neste jornal há 20 anos, e a toda a equipe e colaboradores que acreditaram e continuam acreditando neste projeto e sonhando junto o mesmo sonho meu.
(Elaine Amaral – Empresária, fundadora do Jornal SPASSO Cidades / Especial para o SPASSO Cidades)
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